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sombras na praia da luz
rosas
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O editorial da edição de hoje do Público, da autoria de Nuno Pacheco (e que não tenho aqui, faço esta referência de memória), diz as duas coisas que de facto se podem dizer sobre a evolução recente do chamado caso McCann. Por dizer fica, naturalmente, o principal: qual a verdade dos factos e qual o seu relevo jurídico-penal.

Diz, em primeiro lugar, que muita da reputação da Polícia Judiciária está em causa no desfecho desta investigação. Não só, mas também, porque todos os olhos estão a seguir atentos a investigação, nomeadamente os da imprensa internacional e até os dos governos dado os contornos internacionais do caso, mas porque a PJ precisa de demonstrar, o que não tem feito ultimamente, que a sua estratégia de gestão do impacto mediático das suas investigações faz de facto sentido, e não é apenas uma tentativa de ganhar nos media o que não se consegue ganhar no terreno. Muita da actuação da nossa PJ, ao longo destes 4 meses, pareceu errática e desesperada, de quem não fazia a mais pálida ideia do que tinha acontecido à criança inglesa. Cabe provar, na hora da verdade, que não era assim, e que a polícia sabia o que estava a fazer.

O outro aspecto referido tem a ver com as reacções populares à evolução do caso, e com a absoluta impossibilidade de se fazer, à porta dos tribunais ou nas páginas dos jornais, um julgamento popular. E este aspecto, devo dizer, incomoda-me até à náusea. Mais uma vez os portugueses (pois não serão todos, mas serem alguns já me pode incluir a mim na generalização) dão mostras de total ausência de razoabilidade, de sensatez, de serenidade, revelando-se psíquica e emocionalmente imaturos.
O entusiasmo pueril e insensato dos primeiros dias, com as palminhas, as campanhas, as manifestações inúteis e até porventura prejudiciais de solidariedade, as fitinhas, as esperas à porta da missa, os balões, etc., dá lugar às vaias e às assobiadelas à porta da polícia, que evoluirão sem dúvida para os insultos e a gritaria histérica.
Note-se que estas pessoas não têm hoje mais razões para acreditarem na culpabilidade dos pais do que tinham, há 3 ou 4 meses, para acreditarem na sua inocência. O que se passa é que as pessoas sentem uma necessidade mórbida de extravasar os seus sentimentos, de os catalizar no outro, que é sempre a melhor maneira de não nos confrontarmos connosco próprios. E sentem uma profunda angústia, e até uma impossibilidade, em conviverem com a incerteza, com a ausência de respostas simples e claras (caramba, a vida não é simples e clara), que as leva a aderir, da forma mais básica e temperamental possível, à possibilidade mais óbvia e reparadora, ainda que frágil, ainda que artificial ou mesmo falsa, de verdade.