September 6th, 2007

rosas

nessum dorma

Não posso dizer que a morte de Luciano Pavarotti me encha de tristeza. Nunca fui seu fã, ou seja, ele nunca desempenhou um papel importante na minha vida, afectiva, emocional ou intelectualmente.
Mas há duas coisas que me parece interessante sublinhar neste dia da sua morte.

A primeira é que Pavarotti foi das poucas personagens da nossa contemporaneidade que, em vida, ascendeu à categoria de ícone. Pode-se ser uma celebridade, pode-se até ascender ao estatuto de estrela, mas tornar-se um ícone é mesmo só para raríssimos eleitos. Tarefa tanto mais assinalável quanto Pavarotti vem de uma área, a música clássica, a ópera em particular, que está hoje em dia tão arredada da cultura popular que é, como se sabe, o cadinho onde nascem (e morrem também) os deuses maiores e os deuses menores do nosso tempo.

A segunda nota tem precisamente a ver com isso, com a habilidade que Pavarotti sempre demonstrou em fazer o cross-over entre a música erudita e a música popular, sem nunca perder a face, e muito menos a integridade artística. Claro que não foi o único, mas soube fazê-lo sempre de uma maneira especial. Se Domingo e Carreras (que com ele constituíram Os Três Tenores, precisamente o primeiro grupo, no tempos mais recentes, a trazer o canto lírico para os terrenos da canção popular) e outros divos e divas, devem muito da sua popularidade precisamente à capacidade iconográfica de Pavarotti (eu primeiro reconheço a figura e a seguir vou ouvir a música porque reconheço a figura), por outro lado Pavarotti sempre procurou dar aos seus encontros com artistas e formas musicais populares (a famosa série Pavarotti and Friends) uma certo cunho de 'acontecimento', ligando-os a causas humanitárias e mesmo políticas, que não os limitasse à mera estratégia do marketing artístico ou discográfico.

Por estas razões, é impossível ficar alheio à morte daquele que foi um dos símbolos do nosso tempo e sobretudo do valor da cultura no nosso tempo. Apenas por razões intuitivas, não me parece que Pavarotti vá entrar para o Olimpo dos mitos da nossa civilização, como são, para não sair da ópera, Caruso ou a Callas, que perduram, mesmo dissipada a sua imagem física, muitos anos depois das suas mortes. Mas tenho a certeza de que durante muito tempo permanecerá intacta no nosso imaginário, uma certa imagem de um rotundo cantor de barbas, vestindo smoking e segurando um lencinho branco num palco do mundo, ou abrindo um sorriso largo por baixo da aba inclinada de um borsalino branco.
rosas

creta.4

25.8.07
Dia passado a conhecer o lado ocidental da ilha, e duas das suas principais cidades, Rethymno e Hania.
Na primeira visitámos a fortaleza veneziana, o forte e a loggia, e depois perdemos um tempo imenso com as compras do P. Acabámos por sair da cidade já perto das três da tarde, e ainda fomos a Hania (mais ou menos 80 km de Iraklion até Rethymno e mais cerca de 60 até Hania). Tempo apenas para visitar a zona do porto (com um farol veneziano e uma mesquita) e os bairros turco e veneziano, sobretudo este. Achei a cidade muito bonita, com ruas estreitíssimas, uma arquitectura fabulosa. Estes bairros estão muito aproveitados turisticamente, e ainda bem, porque de certo modo o negócio das lojas e dos restaurantes para turistas são a caução de que as casas velhas, com pátios descobertos a servirem de esplanadas, não vão abaixo. Mas faz um pouco de impressão ver as varandas de ferro e os pórticos de pedra, impressionantes de tão belos, ali a servirem de adorno de casa de pasto.

Já no regresso parámos numa zona de praias de areal comprido, perto da estrada, para um banhinho de final de tarde. A temperatura da água estava excelente, mas o mar estava batido e como não conheço bem este mar e esta praia não mergulhei, fiquei só na arrebentação a molhar as pernas e a barriga. Depois vim secar para o bar da praia, claro, a beber um café frappé. Conferi as mensagens do telemóvel e tinha uma mensagem da minha mãe com a notícia de que morreu o Eduardo Prado Coelho. Fiquei muito triste e compreendo que a minha mãe me tenha mandado a mensagem, pois partilhávamos ambos uma grande admiração pelo EPC, sobretudo pelas crónicas do Público, que líamos sempre e comentávamos frequentemente.
Mas devo dizer que houve ali uma mistura interessante entre a beleza do local e a tristeza da notícia, que deu ao momento uma nota de doce melancolia, que penso agradaria ao EPC.

Os trezentos quilómetros da viagem foram feitos pela Estrada Nacional, que liga a ilha de uma ponta à outra. É uma estrada muito bonita, sempre próxima da costa, serpenteando pelas encostas dos montes. Normalmente só tem uma faixa para cada lado, e tem trechos perigosos, com curvas de inclinação muito manhosa, em que sentimos o carro a fugir. Mas seja em recta ou em curva, respeita-se pouco o traço contínuo, e os motoristas afastam-se para a berma para dar ultrapassagem, ou para dar passagem aos que vêm, de frente, a ultrapassar. A princípio estranhei, mas depois de me habituar comecei a fazer o mesmo. Conclusão: passei hoje mais traços contínuos do que em todos os meus 21 anos de condutor encartado.

Tem-me acontecido uma coisa que detesto que me aconteça em férias, que é sentir vontade de estar em casa. Mas o melhor momento do dia de hoje, que já valeu estas férias, foi a ida à praia ao final da tarde. Sobretudo porque a praia estava praticamente deserta (nem meia dúzia de pessoas no bar da praia), já não estava muito calor. Pela primeira vez desde que aqui estou, senti-me a viver um momento irrepetível.
Eu ia escrever que foi a primeira vez que senti a intensidade dos poemas 'gregos' da Sophia de Mello Breyner, mas é mentira, porque isso sinto sempre que olho o mar. É tão especial. Não é só a cor, tem qualquer coisa de metálico e assustador, mas igualmente aconchegante e sensual.
Acho que são três as coisas que definem Creta: o sol inclemente, montanhas assustadoramente primordiais, e um mar que se espalha liso e azul em redor, tão afagadora e insuportavelmente azul. Um mar que tem em si escrito o destino da primeira aventura.