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dry, augusten burroughs
rosas
innersmile
Estou a terminar a leitura (interrompida nas férias) de Dry, o livro em que Augusten Burroughs relata a sua luta contra a dependência alcoólica. É, dos quatro que li, o meu livro preferido de Augusten, talvez porque seja aquele em que a componente memorialistica está mais transparente. Claro que todos os livros anteriores que eu li, e sobretudo o mais famoso deles, Running With Scissors (em português Correndo Com Tesouras, na Bico de Pena), eram livros de memórias, ou pelo menos de histórias verdadeiras. Mas havia, não sei explicar muito bem, como que uma literalização dessas histórias, como se elas passassem por um filtro com o objectivo de as tornar mais absurdas ou eventualmente mais chocantes para o leitor. Em Dry é tudo muito seco (trocadilho intencional), Augusten expõe-se mais, mostra as suas feridas com candura mas também com uma dose razoável de auto-controlo. O que não deixa de ser curioso, dado que o livro é precisamente sobre o processo de tentar ganhar um auto-controlo não tanto sobre a dependência (alcoólica neste caso) mas talvez mais sobre a necessidade de preencher o vazio interior com a compulsão.
É também o livro em que a homossexualidade de Augusten está mais presente. Não que nos outros livros ela não estivesse presente: Augusten não é propriamente o tipo de pessoa a quem o conceito de 'closet' se possa aplicar, uma vez que ele nunca viveu dentro do armário, tendo vivido toda a sua adolescência, como relata em Running With Scissors, uma relação pedófila assumida, ou seja às claras, precisamente com um paciente do psiquiatra da sua mãe… (confused? leiam o livro, é impossível descrever a história sem perder o sentido!)
Apesar de a homossexualidade em si nunca constituir o tema, uma das tramas do livro é a paixão (consumada) de Augusten por um colega das sessões de desintoxicação, e as suas reflexões (e os seus medos) que essa paixão não passe de mais uma deriva do seu comportamento altamente adicto.
O livro é, como sempre em Augusten, muito divertido, com uma escrita desenvolta, que muitas vezes é puramente humorística. Mas tem um desespero, uma vontade tão grande e tão magoada, que faz com que tenhamos a sensação de que quase por detrás de cada frase humorada do livro há um subtexto de tristeza e mágoa. Se eu já era um fã danadíssimo do Augusten Burroughs, com este Dry entro para o clube dos militantes religiosos.

Leio no site da Bico de Pena que a edição portuguesa de Dry está para breve. Considerem-se notificados!