August 30th, 2007

rosas

literatura gay

Li, regressado de férias, o dossier que o Ípsilon de sexta-feira passada organizou sobre a ficção gay portuguesa. E li ainda, à vol d’oiseau, a mini-polémica que atravessou a blogosfera sobre a admissibilidade de uma categoria de ‘literatura gay’. Sobre este aspecto, nada tenho a acrescentar ao que já tenho escrito aqui no innersmile sobre o assunto, a última das quais há pouco mais de um mês. Categorias são categorias, valem pelo modo como são utilizadas, tanto podem ser janelas que se abrem como gavetas que se cerram. Eu gosto de livrarias com estantes dedicadas à literatura gay porque encontro ali agrupados livros sobre um tema que me interessa. Mas tenho a liberdade, que utilizo, de passar os olhos (e os dedos) pelas outras estantes da livraria, por isso, para mim, a categoria ajuda-me a encontrar o que me interessa ao invés de me afastar do que me repele.

Agora o que eu acho é que a maior parte das opiniões contra a utilização de uma categoria de literatura gay reflectem apenas medo e preconceito homofóbicos. Eu percebo que um autor, por questões pessoais, morais ou apenas comerciais, não se queira ver confinado à categoria de ‘escritor gay’. Já não percebo que um leitor se renda a um receio de ser identificado como ‘leitor gay’, só porque lê livros de ‘escritores gay’ ou porque apanhou o livro na estante errada! O que eu quero dizer é que eu posso discordar da categorização se de algum modo preciso de a usar (como autor, como crítico, como investigador, como livreiro, sei lá), mas já me parece puro exercício de ‘gato escondido de rabo de fora’ a veemência das opiniões de quem à partida não tem nada a ganhar ou perder com isso. A isto eu chamo o complexo masculino da pila pequena. O que me parece que incomoda certas pessoas é o receio de que por lerem um livro que entre numa mais ou menos abstracta e mais ou menos arbitrária categoria de ‘literatura gay’ isso possa macular a sua heterossexualidade impante. Querem poder ir à menina da caixa da Fnac com o último livro do Eduardo Pitta sem recearem que os donos da loja lá na França fiquem a achar que eles têm um piquinho a azedo, ou que sejam tipos macios. Que diferença é que lhes faz? Não percebo…

Quanto ao dossier, fiquei um pouco decepcionado, sobretudo porque não me trouxe nenhuma novidade. E a única que me trouxe, mas que eu desconheço se é para levar muito a sério, é que o Frederico Lourenço afirma que se retirou da literatura, o que é uma péssima notícia. Além de não me dar nenhuma novidade (novos autores, novas edições, novas colecções, sei lá), também não me trouxe nenhuma sistematização. A referência aos autores não é exaustiva; sem procurar muito, encontro Olhos de Cão, que Daniel J. Skramesto publicou na Dom Quixote e que é um livro muito interessante, Maças de Adão, de António Pedro, na Campo das Letras e Os Anjos de Gabriel, de Francisco Corrêa, na Verso da Kapa, edições recentes e que passaram e continuam a passar em branco. Tal como não percebo porque é que a Inês Pedrosa (com Nas Tuas Mãos) continua a ficar de fora da lista dos escritores heterossexuais que escreveram sobre personagens e situações homossexuais.
Tenho pena que o artigo seja pouco interessante, porque pelos vistos agitou as águas e, já agora que as agitou, poderíamos ter avançado um bocadinho. Para falar com franqueza, pareceu-me um artigo com pouca investigação e pouca pesquisa. Eu sei que era um mero artigo de jornal, e não um ensaio científico, mas mesmo assim decepcionou-me sobretudo a falta de novidades, aquelas coisas que a gente lê no jornal e fica com vontade de saber mais, de ir procurar, de encomendar a obra, enfim.



edit: transcrevo para aqui um comentário do Zef e a minha resposta, porque parece-me que enriquecem a discussão acerca da admissibilidade da categoria de literatura gay. Vão sem qualquer edição, e por isso com os errps de quem escreve à pressa e não corrige.

- comentário do Zef:
Devo ser das piores pessoas para avaliar certas questões porque me falta sentido prático, mas se compreendo o lado funcional de certo tipo de rotulação, penso que a nossa actuação deveria beber em fontes mais profundas. Um dia ao ler o Vira-pautas do Leavit senti uma dor tão profunda que quis compreender de onde ela vinha. Afinal a minha história pessoal não era marcada em termos de relações de desencantos ou infelicidades então porque sentia tão bem aquela dor que se me tornava insuportável(ao ponto de nem conseguir olhar a capa amarela do livro), como se não fosse apenas minha mas a herança de uma raça por tantos séculos maldita. Então, pesquisei a chamada literatura gay...Li autores portugueses, Olhos de Cão já citado, a trilogia do Frederico Lourenço, e outros não portugueses e fui constatando que mesmo nos livros escritos hoje os amores entre homens parecem todos eles ser condenados à crucificação. Como acontecia no cinema americano em que as personsagens que evidenciavam "desejos gays" estavam fatalmente destinados à morte violenta pela bala ou pelo suicídio ou pelo fogo. Ainda nos falta, parece-me, e fazê-lo artificialmente também não deve resultar, ter uma relação mais integral(quis escrever inteligente, mas pareceria "arrogante") com a nossa identidade. Como Malouf nas Identidades Assassinas escreve há em nós milhares de aspectos que compõem a nossa identidade. Ver Alexis de Yourcenar ou os poemas de Cavafys ou de Botto ou o De Profundis de Oscar Wilde ou o Banquete de Platão ou até um filme como Caravagio do Derek Jarman numa secção gay, não me deixará de parecer algo redutor e apenas funcional. Privilegiar esta forma rápida de organizar os conteúdos diz alguma coisa do modo como vivemos. Penso que estabelecer secções como Literatura Gay é reforçar esse sentimento antigo de que a nossa identidade é sobretudo estabelecida pelo que em nós de alguma maneira escapa à norma esquecendo-nos que estes livros falam de amor, de religião, de abandono, de nostalgia, de cidade, de poesia...

- minha resposta:
mas não tenho dúvidas de que esses livros falam de amor, de deus, de abandono, de cidade, de poesia. mas recusar ver um livro de um autor homossexual, e que, bem entendido, reflita essa condição, não será igualmente alienar uma parte do livro? Cavafys teria escrito aqueles poemas, se não fosse homossexual? Yourcenar teria escolhido falar de Adriano se a homossexualidade não acentuasse a solidão do homem perante o seu destino e a ausência de deus?

durante muito tempo, a minha homossexualidade era um absoluto segredo, o que me impedia de a confrontar com os meus companheiros de jornada humana, não havia ninguém com quem pudesse falar, discutir, dizer uma piada. Durante esses tempos só a literatura, ou sobretudo a literatura, me devolvia a medida dessa minha característica tão importante. só através dela eu podia entender, e entender-me.
claro, isso acontecia nos escritores que mais directamente reflectiam a sua orientação e reflectiam sobre ela. mas de facto todos os escritores que eu soubesse que eram homossexuais me ajudavam nessa 'enquête'. mesmo aqueles em cuja escrita a homossexualidade não passa de um vestígio ou menos que isso (como por exemplo Pessoa). para mim era importante tentar perceber se a homossexualidade de alguma forma 'marcava' determinada escrita, porque para mim era importante tentar perceber como é que a homossexualidade marcava a minha vida.

dou-te um exemplo. por volta dos 19, 20 anos, li o Querelle, do Genet, já não me recordo se antes ou depois de ver o filme do Querelle. foi uma coisa brutal. pela primeira vez eu lia um livro que era marcado por uma determinada maneira de viver o desejo. e pela primeira vez, um livro guiava-me numa viagem interior de tentar descobrir o que era o meu desejo, como é que era a sua erupção. pela primeira vez, e através de um livro, eu tentava perceber o que era o desejo, o que era o meu desejo.

é disso que falo quando falo de literatura gay. de livros que me ajudem a conhecer-me melhor, enquanto homossexual. que não me roubem nada da aventura humana a que tenho direito, mas que de algum modo me ajudem a perceber melhor a minha perpectiva do mundo. não me repugna que esses livros estejam sinalizados, de forma a que eu os encontre mais facilmente. mas, para te falar com franqueza, tanto me faz em que estante é que os arrumam nas livrarias. na verdade, há muitos anos que eu dou com eles, que os descubro, mesmo quando estão escondidos no meio dos outros.
rosas

princesa

"Segunda, 1 Setembro de 1997
A noite passada, por volta da 1 hora, um automóvel escuro entrou, em grande velocidade, no Túnel D’Alma, na cidade de Paris. Por razões ainda não esclarecidas, o motorista perdeu o controlo da viatura, que, depois de embater num pilar, se desgovernou, chocando com violência na parede lateral do túnel, até se imobilizar, completamente desfeito. Dois dos ocupantes tiveram morte imediata. Um médico, que testemunhou o acidente, acorreu aos destroços da viatura, constatando que uma mulher jovem se encontrava inconsciente, mas viva. Depois de chamar a emergência, prestou os primeiros socorros à jovem. Transportada de urgência para o hospital, foi imediatamente intervencionada, numa tentativa de restabelecer sistemas vitais fortemente afectados. Por volta das 4 da manhã, a jovem entrou em paragem cardíaca e morreu. Tinha 36 anos.
A jovem em questão chamava-se Diana Spencer, Princesa de Gales, ex-mulher de Carlos, o herdeiro da coroa britânica. Casou cedo, conquistando a simpatia dos súbditos de Sua Majestade pela sua beleza e simplicidade. Preocupados com o casamento tardio do príncipe herdeiro, sossegaram a Coroa, o Governo e o Povo com o nascimento, menos de um ano depois, de um filho varão, William a que se seguiu, dois anos depois, o nascimento de um segundo filho, Harry. Estava assegurada a descendência monárquica.
A simpatia conquistada pela princesa, e a rápida sofisticação da sua imagem, tornaram-na numa obsessão popular e mediática. Desde que foi noticiado o seu noivado, nunca mais a princesa abandonou a capa dos jornais e revistas. Todos os seus passos foram seguidos pelas câmaras e objectivas. E Diana, correspondendo a esse interesse, ou fascinada por ele, transformava-se, sempre em frente aos focos dos media, de rapariga simples e tímida em mulher cosmopolita e mundana.
Pouco tempo depois do nascimento de Harry, começaram os problemas da princesa. Carlos, que nunca estivera verdadeiramente apaixonado, perde o interesse pela sua jovem esposa, e, entre os deveres de Estado e os seus interesses de príncipe culto e educado, deixa-a cada vez mais só. A Rainha, preocupada com o mediatismo da princesa, e incomodada com a sua popularidade, decreta-lhe uma guerra surda, cuja arma é, de igual forma, o abandono. Rejeitada pelo marido e isolada pela família deste, Diana sente-se insegura e deprimida. Tem crises de instabilidade emocional, que cura em aventuras românticas passageiras e infelizes. Sempre, mas sempre, debaixo do olhar obsessivo e fascinado, do povo e dos media.
Dez anos depois do casamento do seu filho herdeiro, a Rainha, monarca de sucesso, sente que algo falhou na educação dos seus filhos, cujos casamentos, um a um, acabam por falhar. Vive aquilo a que ela própria chama um “annus horribilis”, com a família devastada, e decide limpar a casa. Permite o divórcio de André, o segundo casamento de Ana, a primogénita, e, mais importante, a separação de Carlos e Diana. E torna a falhar. O saneamento da família lança a Coroa numa crise profunda, quer de popularidade, quer, mais grave, constitucional. E os príncipes de Gales acentuam o falhanço: Carlos entrega-se a um exercício público de indulgência, reabilitando amores antigos e reclamando o direito à felicidade sentimental. Diana está cada vez mais insegura. Sente que, pelos filhos, precisa de ser mais discreta. Mas sabe que a sua única arma, contra a família, são os media e a sua intocável popularidade.
O divórcio, decretado em 1996, apenas aparentemente é uma solução. Na realidade, apenas acentua a crise da Coroa. Realistas, Governo e Igreja lançam-se numa discussão sobre a solução constitucional para garantir a continuidade da monarquia, e nunca chegam a conclusões claras. Diana tenta traçar o seu destino: uma vida pública dedicada à caridade e às causas humanitárias. E reclama o impossível: o direito a ter uma vida privada, longe da sofreguidão dos media. Não sabe, ou não consegue saber, que uma coisa não vai sem a outra. Que não é ela que controla os media, atraindo os holofotes apenas quando isso serve as suas causas, mas precisamente o contrário. Não tem consciência que a chama que ajudou a acender, e que chegou a utilizar como uma arma, não se extingue com o cobertor de uma simples conferência de imprensa.
O desfecho fatal que vitimou a princesa foi trágico e exemplar. A interrupção absurda e violenta da sua vida, a sensação de que ficou alguma coisa por acabar, e de que o seu lugar, na família, no destino da Coroa e no desenho do mundo, é insubstituível, conferem à sua morte um sabor de tragédia. O facto de ter morrido num carro a alta velocidade, a meio de uma noite de sedas e champanhe, acompanhada de um amante milionário, na cidade mais romântica do planeta, entre o regresso de mais uma missão humanitária e uma semana tranquila de férias com os filhos, confere a essa morte uma coerência gelada. Mas o que torna a morte de Diana Spencer absolutamente exemplar é o facto de ter morrido como viveu: perseguida pelos fotógrafos e pelos olhos do mundo, ultrapassado há muito qualquer limite de pudor e sensatez, num fascínio mútuo e mórbido que impôs aos fotógrafos, no local e na hora do acidente, a única acção que ela própria ditou: dispararem as objectivas enquanto a vida abandonava a princesa, captando o momento sublime em que, entre destroços, o mito nascia."

~*~
Escrevi o texto acima há precisamente 10 anos. Lembrei-me dele hoje, depois de a Gaby me ter mandado uma mensagem a lembrar que estávamos juntos nessa manhã de Domingo em que as televisões acordaram com a notícia da morte da princesa Diana.
Reli agora o texto e achei que ele estava publicável, apesar do tom um pouco pomposo, e que reune no essencial aquilo que ainda hoje penso acerca do assunto.
Acrescento apenas um nota. Digo lá em cima que o divórcio de Carlos e Diana não resolveu a terrível crise em que a coroa inglesa estava mergulhada uma década atrás. Curiosamente, ou nem por isso, foi a própria morte de Diana que pôs termo a essa crise, acabando, com a ajuda de Blair e após alguns sobressaltos, como foi muito bem retratado no filme The Queen do Stephen Frears, por reconciliar os súbditos britânicos com a sua Rainha. O que se por um lado dá campo para todas as especulações, por outro não deixa de indiciar que era a própria Diana Spencer a responsável por essa crise, precisamente porque estraçalhou as regras, formais e informais, da relação da coroa com os media. Desaparecida Diana, all is well that ends well.