August 21st, 2007

rosas

caríssimo

P/ o
Sr. Saint-Clair
Rio de Janeiro
Brasil


Caríssimo:

acabei há poucos minutos de ver em dvd o filme 84 Charing Cross Road. Deves-te lembrar que foste tu que mo recomendaste, há muito tempo. Mas, provo-o mais uma vez, nunca me esqueço das tuas recomendações, porque elas são sempre tão certeiras. De vez em quando procurava o dvd por aqui, mas suponho que nunca terá sido editado, ou então esgotou. Convenhamos que não é propriamente um blockbuster para as matinés pré-adolescentes, que são, como se sabe, o padrão do moderno cinema anglo-saxónico, e que enche os escaparates das lojas que vendem filmes. Finalmente vi-o há dias à venda numa livraria on-line inglesa a um preço imbatível, recebi hoje a encomenda e, claro, vi-o de imediato.

Para que não te enchas de vaidade, convenhamos que não era difícil adivinhar que eu iria gostar tanto do filme. Afinal ele tem três coisas que tu sabes que eu adoro: livros, Londres e a Anne Bancroft. E mais uma: a escrita de cartas. Sabes que quando lá fui pela primeira vez, em 1984, Londres ainda era muito como está representada no filme, sobretudo as livrarias de Charing Cross. Ainda restam umas poucas (assim de cabeça não faço ideia se alguma será no n.º 84), mas a minha livraria favorita em Londres não fica nessa rua, mas perto de Bloomsbury, na Marchmont Street (sais da estação de metro de Russel Square e é a rua que está à tua frente, ligeiramente à direita). Entrei pela primeira vez na Gay’s The Word (tem página na net, se quiseres visitar) com a minha mãe, levados pela curiosidade de ser uma livraria especializada em literatura gay e lésbica, basicamente porque ficava no caminho da casa onde morávamos para o supermercado onde íamos ocasionalmente para os abastecimentos maiores. A Gay’s The Word continua a ser o primeiro sítio que eu visito quando chego a Londres (a falta que me faz estar há três ou quatro anos sem lá ir põe-me doente), e por onde passo quase diariamente enquanto lá estou. A minha prateleira preferida é, como na Marks & Co. do filme, a dos livros baratos, em segunda mão (um sebo de literatura gay, podes imaginar?)

Voltando ao filme (tu tem-lo?), tudo nele é delicioso e delicado, como os livros. Os livros são o único objecto que tanto fica bem a ser atirado de encontro a uma parede num ataque de fúria, como a ser manuseado com a delicadeza que merece uma peça de filigrana. Os livros são como os gatos, sempre que olhamos para eles são belos. E o filme traduz isso tão bem. E depois tem um inglês tão lindo, tão elegante, tão sonoro, explorando muito bem as diferenças entre a língua que se fala nos dois lados do Atlântico. É verdade, só no final do filme descobri que o dvd tinha legendas em português, o que significa que o vou rever de novo, agora sem aquele esforço de concentração necessário para entender tudo o que eles falavam.

Mas ainda a propósito dos dois lados do Atlântico… É presunção minha achar que há no filme qualquer coisa de nós os dois, que o nosso fascínio mútuo (antes e depois do nosso encontro pessoal) nasceu muito como o que uniu Helene a Frank? Em tantos momentos do filme me senti tocado, e sempre me lembrando da nossa amizade. Aliás, também por isso ainda o filme estava a correr e eu já estava ansioso para te vir escrever.

Saint, como sabes, estou de partida para férias. Lá para meados da próxima semana estarei de volta, o que significa que as coisas aqui no innersmile vão estar em pausa. No final desta carta vou-te pôr um poema da Natércia Freire que tem estado sempre na minha cabeça desde que se decidiu o destino destas minhas férias. Já te devo ter contado que conheci este poema quando ele ainda era inédito, porque um familiar da poeta, por sinal a quem o poema é dedicado, mo deu a conhecer. É um dos meus poemas preferidos.

Bem, meu querido, dá beijos meus ao T., e aceita, como sempre, a minha gratidão por todas as coisas boas que me tens ensinado e dado a conhecer.

beijos,
miguel




«IMAGEM


Não te inquietes com a sombra do retrato
Nem creias no que dizem os Poetas.
Grego o perfume e a tumidez do cacto.
- Vai procurar-me a Creta.

Os remadores trouxeram teus recados.
Com mel doirado sem que te não firo.
Prenderam-se esmeraldas no meu fado.
- Vai procurar-me a Tiro.

E do Santo dos Santos às visões
Dos Céus, em altos leitos de vaivém,
Perdeu-se a imagem entre as multidões,
- Vai a Jerusalém.

Nada pode valer este Presente
Nesse Egipto de fonte aonde existo.
Nos braços te levei, meu Anjo quente…
- Vai procurar-me em Cristo.»


- Natércia Freire