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summer nights em dvd
rosas
innersmile
Vi, uma destas noites, pela primeira vez, Passage To India, o último filme (ou talvez melhor, o último depois do último, que tinha sido A Filha de Ryan, mais de vinte anos antes) de David Lean. Não tenho bem certo o que me impediu de o ver na altura da estreia, mas tenho a vaga ideia de me ter desencorajado a extensão do filme, e talvez o maneirismo ‘épico-paisagistico’ do cinema de Lean. Apesar de eu ter adorado desde sempre o Lawrence da Arábia, pelo menos desde que o vi no ecrã 70mm do Gil Vicente, a minha admiração pelo cinema de Lean foi coisa da maturidade.
E agora ao ver o filme no monitor da TV a única coisa que me apetecia era mesmo estar a vê-lo num ecrã gigante, que a grandiosidade de cortar a respiração deste cinema pede sala de cinema, de preferência as salas antigas, enormes, com as telas de 70mm.
Aquilo que menos me seduz nos filmes de David Lean é a parte épica, aquela coisa dos milhares de figurantes e dos enormes movimentos de massas. O que mais acho admirável é, primeiro, o modo como Lean filma a paisagem, sempre impondo-se e traçando o destino das personagens, e, segundo, a forma visual da narrativa. Lean não se limita a filmar uma história, ele de facto conta-a por imagens, usa o plano e a sequência para criar tensões e emoções, para dar informação ao espectador. A imagem é o verdadeiro motor da história.

Esta capacidade de contar uma história por imagens, onde o essencial da informação não é passado verbalmente (através dos diálogos ou mesmo da voz off) mas através da própria imagem, é, de Hitchcock a Scorsese, a marca dos grandes realizadores do cinema americano, quero dizer, do cinema anglo-saxónico que se assume sobretudo como indústria de entretenimento, e que é sobretudo um cinema narrativo. E na minha opinião, o mais ‘leaniano’ dos realizadores actuais só pode ser o Steven Spieberg, que tem, como Lean, a vertigem do épico, uma espécie de fôlego de grandeza, de aspiração de grande ecrã. De certo modo, cada filme de Spielberg (enfim, generalizamos) aspira sempre a ser Lawrence da Arábia!

Também por estes dias revi The Color Purple, que nunca mais tinha visto, pelo menos por inteiro, desde a época da sua estreia. Adorei rever o filme, ou melhor, adorei o filme. Comovi-me imenso com esta história de três mulheres que são como a cor púrpura, que define a paisagem sem que cheguemos a dar por ela. O que eu acho sempre magnífico nos filmes de Spielberg é a forma como ele consegue filmar os sentimentos. Por um lado, tem de os simplificar, de forma a caberem na fórmula narrativa, nunca podem ser demasiado subtis ou complexos. Mas, por outro, nunca são lamechas ou primários. Esta história, a de Celie, Shug e Sophia, é uma história de emoções, de como as pessoas conseguem ultrapassar as maiores adversidades apenas sendo fiéis às suas emoções e aos seus sentimentos. Muito mais do acreditando em si próprias, e na sua capacidade de vencer os obstáculos, elas vencem porque decidem, num determinado momento, viverem o que sentem, actuando com a única honestidade possível, que é a de fazermos aquilo que sentimos ser a coisa certa a fazer, a única que nos deixa respirar e nos devolve intacta a dignidade.
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elvis has left the building
rosas
innersmile
Eu tinha um amigo que tinha um escritório de contabilidade em Lisboa. Um dia entrei no seu gabinete e ele perguntou-me se eu sabia o que é que estava a tocar. A mim a espera provoca-me muita ansiedade, ou consigo logo identificar ou o melhor é não pensar mais nisso, por isso desisti quase de imediato. Era o Elvis Presley. Foi um momento definidor, porque raras vezes me senti tão humilhado na vida: como era possível não reconhecer imediatamente a voz inconfundível do Rei, um tipo que eu cresci a ouvir e que acho que nunca houve uma altura na vida que eu tenha passado sem o ouvir! Claro que saí de lá e na primeira oportunidade comprei um cd do Elvis, mais não seja para me redimir de um falhanço tão vergonhoso.

Lembro-me perfeitamente do dia em que o Elvis morreu, faz hoje 30 anos. Lembro-me da casa da Amadora (um andar mobilado perto da estação da CP) onde passei o Verão de 77. Quando me lembro do dia em que o Elvis morreu o que me vem à ideia é a sala de jantar dessa casa na Amadora: a luz velada dos estores castanhos corridos quase até abaixo mas afastados da janela, em pala, a mesa de madeira clara transformada em secretária de utilização comum por todos os da casa (fazíamos as refeições na mesa da cozinha), um aparador com espelho que dava uma certa cintilação precisamente ao canto mais sombrio da sala.

Lembro-me de como a morte entrou na minha vida. Eu teria uns dez, onze anos, e uma amiga da família morreu num desastre de carro num dos cruzamentos mais movimentados da cidade onde então vivia. Lembro-me de muitas vezes estar sentado dentro do carro da minha mãe nas bombas de gasolina junto a esse cruzamento e tentar 'ver' onde estava a morte que naquele mesmo local tinha levado a minha amiga.

Mais ou menos na mesma altura entrou na minha vida a morte mais espectacular, a morte colectiva, das catástrofes. Lembro-me de estar a ler no jornal a notícia de um acidente de avião ("C'est vrai, tout le monde est un peu fou") e de ficar impressionadíssimo com a notícia. Ainda hoje os acidentes de aviação me provocam uma angústia irracional, uma tristeza profunda e desanimadora, não obstante não ter o menor receio de andar de avião. Além disso sempre (mas rigorosamente 'sempre') que ouço, mas sobretudo sempre que leio uma notícia de um desastre de aviação, lembro-me da canção que estava a ouvir, num 45 rpm, nesse momento: «C'est vrai, tout le monde est un peu fou, La vie est belle tout est sens dessus dessous, Quelle histoire, tout le monde est un peu fou, La vie est belle tout est sens dessus dessous».

A terceira vez que a morte entrou decidida na minha vida foi nesse dia de Agosto de 1977. Não porque eu fosse um fã irredutível do Rei, que não era e nunca fui. Ainda havia de dar muitas voltas, e entrar num gabinete de contabilidade, até passar a ouvir tranquilamente e com gozo o Elvis Presley. Mas foi nesse dia que pela primeira vez me tocou a morte de alguém que fazia parte do meu quadro de referências geracional, da categoria de 'ícones e outros mitos'. Acho que de alguma forma comecei a envelhecer nesse dia.
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