?

Log in

No account? Create an account

quando eu crescer quero ser...
rosas
innersmile
A única profissão que eu gostaria de ter é a de pianista. Se bem que eu esteja absolutamente convicto de que a minha verdadeira vocação é não trabalhar, para falar com franqueza gostava tanto de ser pianista que nem encaro bem isso como uma profissão.

O que em primeiro lugar me seduz na profissão de pianista é que não temos de ser nós a transportar o nosso próprio instrumento. Quem alguma vez viu uma rapariga baixinha e de aspecto frágil a carregar com um contrabaixo às costas, percebe a enorme vantagem de não termos de ser nós a levar o instrumento.

Quanto ao pianista, combina-se a coisa pelo telefone e tal, e umas horas antes do concerto lá estamos nós, mãos nos bolsos, para ver a acústica da sala (‘ver’ se calhar não é o verbo mais apropriado, mas eu não domino o jargão profissional) e tomar contacto com o piano. Passamos displicentemente a mão pela caixa e como quem não quer a coisa levantamos a tampa do teclado, tocamos ao de leve dois ou três acordes, e comunicamos com ar decidido que o instrumento não está afinado. É outra vantagem de ser pianista: não temos de ser nós a afinar o nosso próprio instrumento, há rapazes especializados nisso. O guitarrista, coitado, lá está num canto, dobrado sobre o instrumento, a puxar as cordas à procura da afinação perfeita, por entre o ruidoso tumulto da turba (e da tuba também). Na orquestra, os metais, as madeiras e as cordas lá estão a afinar os instrumentos antes da entrada em cena do maestro. E do pianista, claro. Outra vantagem: o pianista não tem de estar preocupado a compor um ar simultaneamente concentrado e descontraído enquanto está sentado no palco à espera que a audiência se despache da bica, porque só entra em palco mesmo quando é para começar a sério. Mas voltando à afinação, o som das orquestras a afinar os instrumentos é sempre tão parecido, que muitas vezes me pergunto porque é que não há um compositor que escreva uma peça original para afinação e ensaio, opus I.

A única dificuldade que sinto em relação à profissão de pianista, é escolher o tipo de pianista que quero ser. Gosto de todos. Por um lado, adorava ser um pianista de jazz, com um fato gasto nos cotovelos (por causa das escalas), ténis pretos e cabelos despenteados e já grisalhos nas têmporas, todo dobrado para cima do teclado, a fazer esgares com a cara, a boca torcida, os olhos em alvo, e no fim agradecer muito com um ar tímido, a mão a torcer a dobra do casaco.

Mas também gostava muito de ser um pianista clássico, para tocar em recitais ou com a orquestra. Os recitais têm uma vantagem, aliás duas. A primeira é que podemos ter aquele ar de "eu vi a luz em um país perdido" (atenção, cito Pessanha, e não precisei de ir pesquisar em www.citacoes.pt) sem que toda a gente ache que andamos a tomar drogas de venda autorizada em farmácias. A segunda vantagem é, obviamente, termos o nosso próprio rapaz para nos virar as pautas, que é como quem diz: eu sou um tipo tão importante que apesar de saber a música de cor, põem-me aqui este moço só para me manter entretido enquanto toco esta sonata de Beethoven. A vantagem de tocar com orquestras é que recebemos um cachet mais elevado e não temos de estar a tocar o tempo todo, de vez em quando podemos parar pura e simplesmente de tocar e apenas gozar o momento, olhando com ar interessado para os violinos e as violetas da orquestra (no caso de sermos bissexuais, é claro).

Mas acho que o que eu gostava mesmo era de ser pianista de lobby de hotel. Primeiro porque tenho a impressão de que há-de proporcionar muitos engates, com pessoas de todos os géneros sexuais e nacionalidades, o que diversifica o leque de opções e internacionaliza a função. Depois, porque se hão-de poder beber uns whiskies de jeito. Atenção, eu nem gosto muito de whisky, mas deve ser bom gostar e poder beber todo o que se quiser. Finalmente porque é o único sítio onde se pode tocar música de alguns dos meus compositores preferidos: Gershwin, Porter, Berlin, e outras capitais europeias.

O que me faz lembrar que a única outra profissão que eu gostaria de ter era a de viajante, tipo jornalista de revistas de viagens ou mesmo apresentador de séries televisivas sobre destinos exóticos.


Tags: