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o céu e a terra
rosas
innersmile
Os filmes os Ingmar Bergman, que faleceu ontem, são um pouco como a militância nos partidos de extrema-esquerda – daquelas coisas que ou se faz aos vinte anos ou é preferível não fazer. Eu tive a sorte e a oportunidade do meu lado, e vi em finais dos anos 70, uma mão cheia dos seus filmes. Uns realizados na época, como Face a Face, Sonata de Outono, o Ovo da Serpente, ou Da Vida das Marionetas, outros em aventurosas sessões de cine-clube realizadas no ginásio da colectividade do meu bairro, como o clássico O Sétimo Selo e, tenho ideia, Morangos Silvestres. Lembro-me igualmente de ver na TV Fanny e Alexandre e a série televisiva Cenas da Vida Conjugal. A prova da minha teoria inicial é que tentei ver em dvd o seu mais recente filme, Sarabande, e nunca consegui passar dos iniciais vinte minutos.
Acho que me fez muito bem ver esses filmes do Bergman nessa altura, porque me obrigaram a um grande esforço de reflexão, e sobretudo porque me deram (como muitos outros, de resto) a possibilidade de ver outro cinema, cinema exigente, completamente alheio às formulas narrativas do cinema de indústria, e que foi muito responsável por me abrir os horizontes e as perspectivas e dar-me uma certa apetência pelo experimentalismo e pelas cinematografias alternativas.
Mas tenho de confessar que a principal razão porque eu vi os filmes do Bergman foi porque ele era o cineasta de grande referência do Woody Allen, e ver os seus filmes, por muito sacrifício que representasse, de algum modo me aproximava do meu ídolo cinematográfico na altura.

Entretanto já hoje chega a notícia da morte de outro realizador maior, o italiano Michelangelo Antonioni. Partilhando com Bergman a característica de fazer um cinema poético, não convencional, exigente enquanto matéria intelectual, os filmes de Antonioni eram, ao contrário dos do sueco, muito menos cerebrais, mas mais líricos, lidando com os lados abrasivos do desejo e da solidão. Diferentemente do que aconteceu com Bergman, tenho ideia de ter visto muito poucos filmes de Antonioni na sala de cinema. Que me lembre com nitidez, só mesmo Blowup, que continua sendo o meu filme preferido do realizador, e um dos seus últimos filmes, Au Delá des Nuages, todos os restantes que conheço, vi-os na televisão ou em dvd.


Aproveito para descer à terra e referir duas séries de televisão que me têm divertido. Uma delas é Extras (co-produção da BBC e da HBO), do Ricky Gervais, que é um portento de comédia, e daquelas como eu gosto, que partem de um quadro de perfeita normalidade e vão introduzindo sub-repticiamente um elemento de absurdo. A série é protagonizada por um par de extras de cinema, e cada episódio tem sempre um convidado que é a estrela principal do filme no qual os dois protagonistas estão a trabalhar. No de Domingo foi o Orlando Bloom que, para além de pretender sem sucesso impressionar a Maggie, passou o tempo todo a dizer mal do Johnny Depp. Note-se que estes actores convidados fazem o papel deles próprios, ou, enfim, uma versão normalmente bastante piorada deles próprios (o próximo vai ser David Bowie). A RTP passou de seguida as duas temporadas, tendo a segunda começado no Domingo.

A outra série é Weed, que comecei a ver por estar na slot das noites de segunda-feira do segundo canal e eu já estou mais ou menos formatado para ver as séries que passam nesse horário! Isto apesar de ser uma série mais próxima do formato sit-com do que as séries dramáticas que normalmente passam nesse horário. Tanto que a RTP optou por transmitir dois episódios seguidos da série. Não a tenho achado grande espingarda, é uma coisa um pouco na linha das Donas de Casa Desesperadas, mas em que o tema central é a erva e o seu consumo, com um olhar sarcástico e ácido sobre a 'loucura normal' do subúrbio das cidades americanas. Mas o final do episódio 4º (o segundo transmitido ontem à noite) foi um daqueles momentos refinados da narrativa televisiva – a meio da noite um avião deixa cair parte da sua carga em cima de algumas casas do bairro, que faz acordar os sobressaltados e atónitos habitantes no meio de um caos provocado pelo rebentamento de garrafas de coca-cola. Vamos vendo alternadamente imagens da confusão reinante e da mais antipática das personagens femininas, Celia, a fazer desenhos com um baton num espelho. Quando o marido de Celia, sentado na cama, tenta perceber o que está a passar no quarto destruídos pelas garrafas de coca-cola, Celia entra e anuncia que tem cancro. Brutal!