July 29th, 2007

rosas

foi assim, diz ela

Terminei há momentos a leitura de Foi Assim, o livro em que Zita Seabra (será ofensivo tratá-la por escritoraZita?) recorda os anos da militância comunista e o processo da sua dissidência do PCP.

Curiosamente, o que achei mais interessante a propósito do lançamento do livro da escritora Zita é extra-livro. Recordo-me bem de como nos anos 70 eram tratados os dissidentes do PCP, vítimas de eficazes processos de descrédito, acusados de traição e de estarem a soldo das tenebrosas e obscuras forças do capitalismo. Ora o interessante foi observar como, 20 anos depois de ZS ter saído do PC, quase outro tanto desde o fim da URSS, e já com Álvaro Cunhal morto há 2, o livro levantou exactamente o mesmo tipo de tumulto, com as acusações a parecerem retiradas a papel químico desses antigos processos de purga.

Um livro com esta temática daria sempre azo a reacções violentas, e de certa forma percebe-se. Mais do que uma memória da relação apaixonada entre ZS e o PCP, o livro soa, de cabo a rabo, a um ajuste de contas com Álvaro Cunhal. A fiarmo-nos no relato de Zita (e por muito que ela deturpe ou manipule temos todos a impressão de que a realidade não terá andado muito longe disto), Cunhal tratou-a com particular crueldade, acrescentando agressividade (para já não falar na humilhação) a um processo que já de si seria violento, e tornando-o capaz de destruir a personalidade e a vida da mulher que em Portugal mais subiu na hierarquia do comunismo organizado. Compreende-se por isso que Zita Seabra tinha este encontro marcado para fazer a sua vendeta, traçando de Álvaro Cunhal o retrato de um líder carismático, mas moral e humanamente reprovável, desprovido das mais elementares qualidades benfazejas, calculista e obstinado, frio e cruel. Em suma, um retrato que põe Cunhal ao nível da galeria de retratos odiosos dos líderes do comunismo internacionalista, sob a égide, obviamente, de Estaline.

Para quem não tem no comunismo a grande referência política, ou através da devoção religiosa ou através do anti-comunismo primário e radical, o livro lê-se com interesse, ou melhor com curiosidade, e com distância e serenidade. Algures entre o descrédito total e a crença absoluta, há, como deve haver, uma leitura intermédia, em que cabe a cada leitor dar ao relato o peso e o valor que entende. Também neste caso se poderá dizer que o diabo não é tão mau como o pintam nem tão bom como ele quer fazer crer.

Mas se o retrato que o livro pretende traçar de Álvaro Cunhal é demolidor, o que resulta da própria autora também não é propriamente brilhante. Uma radical, tão capaz como o seu chefe de ser implacável e cruel, que não perdoa nem compreende as fragilidades alheias, e que em vez de convicções tem dogmas. Aliás, só isso explica que ZS tenha enchido a maior parte das mais de 400 páginas do livro (de facto, quase apenas com excepção dos dois últimos capítulos) com um discurso tão ortodoxo que muitas vezes Foi Assim parece antes o livro de horas de uma militante comunista que continua absolutamente convicta da causa em que milita.