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innersmile
Na noite da passada terça-feira, a rtp2 transmitiu um documentário sobre Jim Jones e o People’s Temple, nomeadamente sobre o suicídio colectivo de Jonestown. Tenho alguma memória dos acontecimentos, apesar de um pouco vaga, não obstante tudo se ter passado no longínquo ano de 1978. Lembro-me do desenrolar da crise e do seu trágico desenlace. E sempre senti uma enorme curiosidade, já não digo em tentar perceber o que se passou, mas ao menos em conhecer os factos de molde a entender alguns dos mecanismos que precipitaram o absurdo e o horror. Suponho que todos esses acontecimentos, o estilo de vida comunitário, as acusações de lavagem ao cérebro, a culminar nessa coisa para mim totalmente incompreensível que é alguém conseguir levar mais de 900 pessoas a, mais ou menos voluntariamente, beber cianeto para morrer, tudo isso, dizia, deve ter causado no meu espírito adolescente um misto de fascínio e horror que me marcou muito.

Resumindo, para quem desconhece a história, o pastor cristão Jim Jones fundou, nos anos 60, uma comunidade religiosa que se destacou por defender os valores do socialismo e por ser racialmente integrada quando os Estados Unidos viviam ainda no tempo da segregação racial. Em 1977 as autoridades americanas começaram a investigar Jones e o Templo do Povo por fuga aos impostos, e o pastor e perto de um milhar dos seus seguidores e fieis, mudaram-se para a Guiana, onde fundaram Jonestown, uma comunidade agrícola que aspirava a ser a Utopia, o paraíso na terra.

Em Novembro de 78, para responder a acusações de familiares de habitantes de Jonestown de que havia graves violações de direitos humanos, nomeadamente assassínios, e de que muitos dos habitantes estavam de facto presos e impedidos de sair da Guiana, uma missão do Congresso dos EUA, chefiada pelo Senador Ryan, deslocou-se a Jonestown para uma curta visita. Ao princípio tudo correu bem, mas na manhã do dia 18 as coisas precipitaram-se. Muitos habitantes pediram socorro, começaram a chover acusações, a situação começou a ficar descontrolada. O senador foi vítima de um atentado, tendo sido ferido com uma faca. Os membros da missão, e mais um grupo de habitantes que pediram para acompanhar o grupo, saíram de Jonestown, mas quando chegaram ao aeródromo e se preparavam para embarcar em dois aviões, foram atacados a tiro por homens de Jones que os tinham seguido. Alguns conseguiram sobreviver, mas entre os mortos estava o próprio senado Ryan.

Entretanto em Jonestown, Jim Jones pôs em prática o seu plano de suicídio revolucionário incitando os habitantes a ingerirem uma mistura com cianeto. Segundo os relatos, os que se recusavam a beber voluntariamente eram injectados com cianeto ou simplesmente abatidos a tiro.

Os relatos do suicídio, feitos por um grupo de sobreviventes que se conseguiu refugiar no mato são impressionantes. Tal como impressionantes são as imagens das primeiras câmaras a chegar ao local, com centenas de corpos deitados no chão, sem sinais aparentes de violência, concentrados à volta da zona principal do recinto.

Claro que é uma história estranhíssima, de que se desconhecem muitos aspectos, e acerca da qual há muitas teorias, nomeadamente as costumeiras teorias da conspiração, que falam em ataques da CIA e tal. A figura de Jim Jones é muito controversa: um pastor de sucesso, uma figura respeitada até nos círculos políticos da Califórnia (foi um dos financiadores da candidatura à prefeitura de São Francisco do activista gay Harvey Milk, ele próprio assassinado poucos dias depois do massacre de Jonestown), defensor do socialismo e da integração racial, com crescentes e acentuados traços de paranóia, agravados pelo consumo de drogas.

O que mais me impressiona nesta história não é tanto a capacidade de Jones conduzir um grupo tão grande de pessoas ao suicídio, mas a disponibilidade de essas pessoas para, de forma mais ou menos voluntária e pacífica, escolherem a morte. Claro que há outros casos de suicídios colectivos. Mas neste caso não estamos a falar de um grupo de 12 ou 20 tipos com pancada convencidos que são extraterrestres. Estamos a falar de um milhar de pessoas diversas, diferentes umas das outras, de raças diferentes, com histórias diferentes. Estamos a falar de um milhar de indivíduos. De famílias, de pais e filhos (mais de duzentas vítimas eram crianças), de velhos. De pessoas que eram activas e trabalhavam na comunidade.

E é este descer 'gentle into the good night', como no poema de Dylan Thomas, em circunstâncias que paradoxalmente parecem enaltecer a vida, que me perturba. Curiosamente, ao ver o documentário e agora ao escrever este texto e a documentar-me para o escrever, o sentimento que me domina é de desânimo. Como se esta história, por ser totalmente absurda e tão profundamente triste, resultasse ela própria num certo convite à desistência.