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mano a mano
rosas
innersmile
"Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado,
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás"



Do muito que lhe devo, devo também ao Caetano Veloso ter descoberto este tango e ter-me apaixonado por ele. Devo-lhe mais: graças ao Mano a Mano, voltei a ouvir tangos e voltei a fascinar-me pelo Carlos Gardel.

A voz de Gardel é seguramente património da humanidade, e no dicionário das emoções humanas a entrada dedicada ao sentimento romântico bem pode constar apenas de um tango ou uma milonga cantada por ele. Mas, e como normalmente acontece, o que dá à voz do Gardel e à sua maneira de cantar um carácter tão universal é precisamente o facto de trazer tão definidas as marcas de um país e de uma cidade. Talvez seja só psicológico (mas não é), efeito de sugestão, mas a verdade é que começo a ouvir o Carlos Gardel a cantar e ponho-me a rever mentalmente as calles e as avenidas de Buenos Aires, a elegância da Recoleta ou a intensidade de La Boca.

O clip não tem, como é óbvio, a melhor das qualidades sonoras, mas é um documento fabuloso, que nos põe tão próximos de Gardel. Mano a Mano é o meu tango preferido, saturado de sentimento e emoção, mas sem nunca ser piegas ou macio. Antes pelo contrário, tem uma certa dureza, uma dureza doce, escorrida, como se, num dia de maior sensibilidade, conseguíssemos sentir a aspereza do veludo.
Gardel canta-o sem quaisquer recursos dramáticos, sem alterar a voz, sem inflexões ou pausas. Tudo o que há, está na melodia, nas palavras (lindas, o espanhol é uma língua linda, tão quente, tão forte), e no modo escorreito como a voz é colocada. Mas atente-se na última estrofe da canção. De súbito, perto do final, no clímax, é quase como uma bomba que está carregada e prestes a explodir. Gardel está de facto a falar com a amada e a confrontá-la, a oferecer-se mas também a negar-se, a afastar-se mas sempre a jurar o seu amor. Há qualquer coisa na voz que é tão poderosa que, por um momento, parece sacudir o próprio corpo do cantor.

«Rechiflao en mi tristeza, te evoco y veo que has sido
de mi pobre vida paria sólo una buena mujer
tu presencia de bacana puso calor en mi nido
fuiste buena, consecuente, y yo sé que me has querido
como no quisiste a nadie, como no podrás querer.

Se dio el juego de remanye cuando vos, pobre percanta,
gambeteabas la pobreza en la casa de pensión:
hoy sos toda una bacana, la vida te ríe y canta,
los morlacos del otario los tirás a la marchanta
como juega el gato maula con el misero ratón.

Hoy tenés el mate lleno de infelices ilusiones
te engrupieron los otarios, las amigas, el gavión
la milonga entre magnates con sus locas tentaciones
donde triunfan y claudican milongueras pretensiones
se te ha entrado muy adentro en el pobre corazón.

Nada debo agradecerte, mano a mano hemos quedado,
no me importa lo que has hecho, lo que hacés ni lo que harás;
los favores recibidos creo habértelos pagado
y si alguna deuda chica sin querer se había olvidado
en la cuenta del otario que tenés se la cargás.

Mientras tanto, que tus triunfos, pobres triunfos pasajeros,
sean una larga fila de riquezas y placer;
que el bacán que te acamala tenga pesos duraderos
que te abrás en las paradas con cafishios milongueros
y que digan los muchachos: “Es una buena mujer”.

Y mañana cuando seas deslocado mueble viejo
y no tengas esperanzas en el pobre corazón
si precisás una ayuda, si te hace falta un consejo
acordate de este amigo que ha de jugarse el pellejo
p’ayudarte en lo que pueda cuando llegue la ocasión»