July 24th, 2007

rosas

estrella morente+amadou & mariam

Como se deduz da minha valente crise independentista de uma das últimas entradas, tenho ouvido muito o cd da Estrella Morente, Mujeres. A última faixa do disco é uma versão do Ne Me Quittes Pas feita a partir (e como homenagem) da versão da Nina Simone. Quem conhece a versão da Nina sabe como ela canta o clássico de Brel com uma péssima pronúncia da língua francesa, mas como, ao fazê-lo, consegue pessoalizar a canção e dar-lhe uma honestidade arrepiante. Como disse, a Morente faz a sua versão a partir da da Nina Simone, e no final aquele francês que ela canta tem apenas uma vaga semelhança com o original. Mas o que é absolutamente fantástico é que a Morente consegue acrescentar camadas à canção, deixando intactas as camadas anteriores. Assim conseguimos ouvir, quase em cada verso, a interpretação própria da Morente, a prolongar palavras em suspiros e modelações, e ainda o tom magoado e desistente da interpretação da Nina Simone, e ainda a loucura desesperada da interpretação do Jacques Brel. É fabuloso.

É verdade que uma simples faixa de um disco pode fazê-lo valer a pena. Mesmo quando um disco é todo ele muito bom, bastaria uma faixa, a descoberta de uma canção essencial, para nos submeter por inteiro. Falo de um disco da dupla do Mali Amadou et Mariam, uma colectânea intitulada ‘1990-1995: Le Meilleur des Années Maliennes’. São 16 faixas da melhor música que se possa imaginar, a fazer crer que o Mali deve ter qualquer coisa de sagrado, para os seus nacionais serem capazes de produzir um blues assim tão superior. As primeiras faixas então, reduzidas a um acústico quase exclusivo da guitarra, fazem mesmo lembrar a guitarra de Ali Farka Touré que, de resto, e segundo a informação do encarte do disco, esteve ligado à descoberta da dupla.
Mas como disse, bastaria uma única faixa, a terceira do disco, para valer a pena conhecê-lo. Intitula-se Se Te Djon Ye, e apesar de ser cantada numa língua completamente desconhecida e incompreensível para mim, é daquelas tão claras, tão cristalinas, tão transparentes, que mesmo sem perceber uma única palavra, cada um de nós, que a ouve, é capaz de lhe perceber o sentido profundo, como uma alma errando sob o céu imenso da mais escura noite africana.