July 23rd, 2007

rosas

la faute a fidel+lady chatterley

Um Domingo no Porto aproveitado para ver filmes. Como as oportunidades para ver cinema europeu não abundam, aproveitámos para ver dois filmes de origem francesa e, por coincidência (ou não), ambos realizados por mulheres.

O primeiro foi La Faute À Fidel, uma deliciosa comédia passada em 1970, que relata as aventuras e sobretudo as desventuras de uma menina de 9 anos cujos pais decidem, quase de um dia para o outro, abraçar a causa revolucionária e dedicar os seus esforços à causa do Chile de Allende. Esta revolução familiar implica abdicar das origens burguesas de ambos os pais, a mudança de casa para um apartamento mais modesto, a troca da ama exilada de Cuba (e que culpa Fidel de tudo o que acontece de mau) por outra exilada grega, a casa cheia de barbudos comunistas. O problema é que Anna gosta do colégio de freiras, adora as aulas de catequese, revê-se nos tiques de alta burguesia dos seus avós maternos e, sobretudo, tem muito medo dos barbudos comunistas que lhe invadem a casa, graças à tal ama cubana.
O filme tem, como se depreende, um lado mais programático, tentando situar e perspectivar as dificuldades que uma criança sente quando, de súbito, lhe alteram as circunstâncias do mundo, como ela o conhece. O interesse aqui é, acho eu, sobretudo geracional, porque a história dos seus protagonistas reflectirá muitas das histórias dos filhos dos jovens europeus apanhados pela convulsão esquerdista e revolucionária que varreu o mundo ocidental nos anos sessenta e setenta.
Mas o aspecto que mais me divertiu tem sobretudo a ver com o investimento que o filme faz nas suas personagens, em todas elas, mas de modo mais incisivo nas crianças, e que dá ao filme o cunho de uma história, mais ou menos pessoal, mas em todo o caso com um cunho muito realista (no sentido de ser baseado numa realidade que se conhece bem), uma história que se quer contar. E é este investimento, na minha opinião, que dá riqueza ao filme, que o torna empolgante, por de facto acreditamos na verdade daquelas personagens, interessamo-nos por elas, estamos suspensos do seu destino.
E esta capacidade de contar uma história, que seja não apenas verosímil mas credível, é tão rara no cinema de hoje em dia, para mais sem recorrer aos truques e rodriguinhos habituais do melodrama, feitos de forma mais ou menos explicita para nos manipular as emoções.
O filme é realizado por Juliet Gravas, filha de um dos ícones do cinema de intervenção dos anos 70, o grego Costa-Gravas, e foi aliás nas recordações que tinha das filmagens de Missing, o filme que o seu pai realizou sobre a crise chilena, que a realizadora se inspirou para situar o activismo político dos pais de Anna. E, muito provavelmente, é este cunho pessoal do projecto que dá a este filme a caução de honestidade e ternura que o tornam tão especial. Isso, e o desempenho de Nina Kervel-Bey no papel de uma menina de 9 anos muito irritada com o curso que os adultos têm dado à sua vida!

Lady Chatterly, de Pascale Ferran, chega-nos com um certo prestígio de objecto cultural, a que os 5 césares que recebeu conferem consagração. O filme, diga-se, aguenta-se bem à bronca, apesar da duração excessiva que é, na minha opinião, a sua principal fraqueza. Não é que seja monótono ou entediante, mas o registo subtil e intimo que adopta (com muita inteligência, de resto) pode-se tornar cansativo, e mesmo um pouco exasperante, ao fim de 3 horas!
Mas há duas ou três notas a salientar, e que o tornam um filme fora de vulgar. Desde logo a própria escolha do livro de D.H. Lawrence (de facto, uma segunda versão do famoso Lady Chatterley’s Lover): ainda no tempo da minha adolescência, o romance tinha a fama de escandaloso, por ter sido não apenas o primeiro que introduziu o sexo na literatura, mas sobretudo que introduziu a subversiva supremacia do desejo face à convenção social. E se é verdade que essa componente escandalosa hoje em dia foi completamente ultrapassada, o carácter subversivo desta narrativa permanece actual. Mais do que a volúpia da entrega amorosa, o que o filme de Ferrand encena é a vontade de descobrir o mundo, e o potencial transgressor que essa descoberta implica.
Outra nota é para a forma como a realizadora conta a história. Recusando sempre o excesso de explicação, ilustrando, mais do que expondo, o evoluir da relação amorosa entre Constance e o guarda de caça, e da ressonância que ela vai provocando no mundo estruturado em que se movem as personagens, mas sempre recusando simbolismos fáceis ou implícitos subterfúgios, o filme vai-se desenvolvendo com inteligência e segurança, e com uma tranquilidade que está sempre em polvorosa, sempre na iminência da ruptura que é, afinal, o valor daquela relação.
Finalmente é de destacar a justeza das composições de Marina Hands e Jean-Louis Coullo’ch que conseguem, com uma notável economia de gestos, de expressões e até de linhas de diálogo, dar a exacta medida da perplexidade e do maravilhamento daquelas duas personagens perante o fulgor e o transtorno dos sentimentos que elas próprias traziam adormecidas dentro de si.