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rosas
innersmile
Hoje de manhã cedo, no percurso de casa para o emprego, a Cecilia Bartoli a cantar a Casta Diva, de Bellini, gravação em estreia na rádio.
Apertem os cintos e endireitem as costas das vossas cadeiras: é estratosférico!

saramago
rosas
innersmile
É curioso como em Portugal o debate público ainda é totalmente marcado pela política, pelas posições ideológicas, ou mais vulgarmente apenas partidárias, das pessoas. Eu pecador me confesso, que quando discuto qualquer coisa não descanso enquanto não percebo o posicionamento político do meu interlocutor e, quando o percebo, armo-me logo de tudo o que é preconceito. A única coisa que poderei invocar em minha (fraca) defesa, é que o faço qualquer que seja o posicionamento político respectivo, ou seja, quer o meu interlocutor seja de esquerda ou de direita, leva logo o ferrete do meu preconceito (ok, admito: quando é de direita, espeto o ferrete com mais força).

Isto a propósito do escritor José Saramago e das suas polémicas, mas nada surpreendentes ou sequer novas, afirmações de que a vocação de Portugal, no futuro, é ser uma província de Espanha, ou melhor, de uma Ibéria que integre os dois países mas na qual o nosso teria um peso político insignificante. Que Saramago é iberista, sabemo-lo todos há muito. E vamos sabendo que cada vez está menos só nesse sentimento. E, se não sabemos pelo menos desconfiamos, que em Espanha o iberismo não deve passar de um diletantismo filosófico mas pouco urgente, enquanto em Portugal, por ser uma questão de sobrevivência, é daquelas coisas que eriça a pele, todas as peles, as dos que estão contra e também as dos que estão a favor.
Ora nem me parece que estas declarações do Saramago tenham sido das piores que ele já fez sobre o assunto. E basta lê-las, estão no site do Diário de Notícias, para perceber que não são incendiárias, não visam atear o rastilho. Aliás nem sequer têm o pleno sabor de uma profecia à Bandarra. De facto, para vários efeitos, Portugal já é uma província de Espanha, e esta ainda nem sequer mudou de nome.

Mas o que eu queria trazer à liça era outra coisa. Sempre que Saramago pronuncia uma das suas atoardas, a reacção, sobretudo dos mais irritáveis, é em pacote: no mesmo passo, critica-se a personalidade do escritor (sendo a vaidade e a arrogância os traços mais salientes), o seu passado e o seu presente político (onde pontua, em letras douradas, a direcção do Diário de Notícias há… quantos anos? Em 1975?!), deplora-se o facto de ele viver em Espanha amuado com a pátria e ser casado com uma espanhola. E sobretudo considera-se que é um mau escritor, fraquinho, medíocre, menoriza-se o prémio Nobel (li por aí que concerteza a Academia nem leu os romances, limitou-se a passar os olhos pelas notícias nos jornais suecos e a ceder a pressões políticas – o que de resto daria um óptimo título do DN em 1975: ‘academistas suecos cedem a pressões de comunistas portugueses!’).
Ora, Saramago pode ser isso tudo, mas uma coisa que ele de facto não é, é ser um escritor menor, um mau romancista, completamente desprovido de qualquer ideia literária, variando o tom apenas quanto à habilidade – para os mais radicais não sabe sequer usar a pontuação, para os mais moderados, enfim, é um habilidoso das palavras, com aquela condescendência com que se diz que o menino de 9 anos tem muito jeito para as redacções escolares.

Saramago é um grande escritor. E há provas, muitas, de todo o tipo, mesmo para quem acha que estas coisas são mera questão de gosto, a salvo de juízos probatórios. Sim, há provas. Saramago vende muito, aqui e no estrangeiro, na sua e em muitas línguas (e eu não acredito que um americano do Texas ou um báltico de Vílnius comprem os seus livros só para se armarem em intelectuais), o que faz dele um escritor popular. A obra de Saramago é estudada em universidades, é analisada pelos críticos, fazem-se teses e estudos sobre os seus livros, o que o torna um escritor consagrado pelo cânone académico. Os seus livros são objecto de apropriações e leituras por várias disciplinas artísticas (ópera, teatro, cinema, dança, a própria literatura), o que faz supor que há alguma coisa de importante no olhar que deita ao ser humano para despertar tanto o interesse de outros criadores artísticos. Em suma, sob qualquer que seja a perspectiva Saramago é um escritor importante, influente, marcante. Se não é isso que faz um ‘bom’ escritor, então não sei o que possa ser. E já nem falo no Nobel, ou nos muitos outros prémios que recebeu, ou no reconhecimento que lhe deram inúmeras universidades em todo o mundo.

Naturalmente, Saramago não escreveu apenas obras-primas. O último livro que publicou, As Pequenas Memórias, nem o terminei, achei-o pobrezinho. Os seus últimos livros não têm o fulgor que outros tiveram? É possível, mas isso não significa que Saramago é um escritor em decadência. Quando muito, pode significar que o homem está velho, mas também não é de espantar, o escritor tem mais de oitenta anos, vai a caminho dos noventa. Quantos escritores conhecemos que aos oitenta e tal anos conservam a capacidade de criar histórias e a disciplina e a energia (física e anímica) necessárias ao exigente (exigentíssimo) ofício de escrever? E falo apenas nos octogenários vivos porque, como sabemos, aos oitenta anos a maior parte dos escritores já estão mortos e esses, então, não produzem nem uma lista de compras de supermercado… E sendo a velhice um posto, a de Saramago deveria merecer respeito, e não desdém!
Mas se nem todos os seus livros são obras-primas, Saramago, apesar de tudo, escreveu algumas. Obras grandes, maiores, verdadeiros patrimónios culturais da humanidade, que tocam e afectam milhares de pessoas em todo o mundo, leitores anónimos ou académicos ilustres. Da cerca de uma dúzia de livros seus que li, há três que eu considero obras-primas: O Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e o Ensaio Sobre a Cegueira. Para outras pessoas serão outros os livros preferidos, claro. O Ano da Morte é mesmo um dos meus livros preferidos, faz parte daquela lista dos dez livros da ilha deserta, um livro que li e reli várias vezes e conto vir a reler outras mais.

Por tudo isto, não percebo o azedume com que se menoriza o escritor José Saramago, com que nós, portugueses, o desqualificamos. Ainda me lembro da frieza com que foram recebidos os últimos livros do Eugénio de Andrade, de como se dizia, e escrevia, que Eugénio estava a envelhecer e a sua poesia a envelhecer com ele e a perder qualidade. Claro, que ainda o poeta estava vivo, em longa agonia, e já toda a gente se prostrava nos altares dos elogios fúnebres. É nossa, esta mesquinha inveja de apoucar os vivos e engrandecer os mortos.
Saramago está vivo, sobretudo activo, e espero que assim se conserve durante muitos anos. A escrever livros, por menores que sejam. E a dar opiniões, umas mais polémicas que outras, umas mais irritantes que outras. Para nós, que partilhamos com ele um tempo, um espaço, e sobretudo uma identidade cultural, este convívio só devia ser motivo de orgulho e privilégio.