July 18th, 2007

rosas

brabante

Por vezes tenho a impressão de que o meu gosto pela poesia tem a ver apenas com o som, com a música das palavras. Quer dizer, tem sempre, é claro, mas o que quero dizer é que a razão porque comecei a gostar e a ler poemas tem exclusivamente a ver com o ouvido, com a forma como as coisas me soam. Apesar de não conseguir tocar nenhum instrumento, e de não conseguir afinar a voz nem para dizer as horas, tenho um bom ouvido musical, sou orelhudo, fixo os sons. Em relação a alguma da música que ouvi muitas vezes, sou capaz de a reproduzir mentalmente na íntegra, não só a melodia ou as palavras, mas inclusivamente os arranjos, as pausas, os timbres.
Com os poemas passa-se a mesma coisa. Os poemas que eu ouvi quando era miúdo, em casa dos meus pais, nos discos do João Villaret, ficaram sempre comigo, lembro-me não só das palavras mas sobretudo da voz, do som da voz do Villaret a dizê-los. Aliás, de alguns nem sequer me lembro das palavras mas recordo-me perfeitamente do tom, da voz, da particular inflexão interpretativa que o Villaret usava para os dizer.
O facto de não o conhecer da televisão, mas apenas dos discos, reforça essa impressão de que era sobretudo o ouvido, a música, a prender-me aos poemas. Muitos desses poemas consegui encontrá-los e lê-los mais tarde, já como leitor de poesia. Alguns são poemas de alguns dos meus poetas preferidos, a outros prende-me apenas o afecto da memória. Muitos deles encontrei-os na net, às vezes uma trabalheira pois não lhes sabia o nome, nem o autor, e apenas me lembrava de um verso ou dois desgarrados.
O problema é que a maior parte dos discos ficaram perdidos e há muitos poemas que nunca li, quanto mais reler, que nunca consegui encontrar, e de que só me lembro de um pedaço, de um verso. Ou mesmo de que só me lembro da voz do Villaret a dizê-los (um pouco como no célebre poema do Pessoa: “ó tocadora de harpa, pudesse eu beijar/ o teu gesto, sem beijas as tuas mãos”). Havia um engraçadíssimo, sobre a presença de D. João VI e da corte no Brasil, nem sei se de autor português ou brasileiro, de que não me lembro de nada, à excepção da voz do Villaret, e de que tinha como tema queixas que o rei recebia acerca da conduta moral de uma certa mulata. Nunca li o poema todo, não o consigo encontrar, em parte porque nem sequer consigo recordar um pedaço significativo do texto.

Há um poema que demorei alguns anos até o conseguir encontrar. É de Gomes Leal, que não é propriamente um desconhecido, mas só o encontrei impresso, já há uns anos, numa edição antiga à venda na Livraria Ler Devagar, em Lisboa (o que eu gostava dessa livraria, das estantes altas a acompanhar o imenso pé direito da sala, do cheiro dos livros, dos sofás displicentes e desirmanados). Na altura não comprei o livro e tornei a perder o rasto ao poema, já que na net só muito recentemente o encontrei.
É um desses poemas que me vem de uma gravação do João Villaret, e que sempre que o leio, é o Villaret que oiço. Encontrei-o finalmente na net, há poucos dias, num site… gótico, juntamente com outras pérolas do romantismo português, tipo ‘Noivado do Sepulcro’.
Apesar dos tons realmente um pouco góticos do poema, muito filme do Roger Corman e tal, continua a ser, para mim, um poema lindíssimo, que me comove muito, porque poucas coisas há que me comovam tanto como o amor incondicional, o amor que subsiste apesar de tudo, muitas vezes apesar do próprio objecto do amor. E depois, como resulta do que disse atrás, é de facto um poema muito cinematográfico, muito teatral, com cenários e personagens, com peripécias e reviravoltas.
Gomes Leal dedica-o a Alberto Osório de Castro, e intitula-se A SENHORA DE BRABANTE:

«Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua mão macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a Senhora Duquesa de Brabante.

N'uma cadeira d'espaldar dourado,
escuta os galanteios dos barões.
- É noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os corações.

Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
á moda goda: - aos toques dos clarins.

Mas a Duquesa é triste. - Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Dizem as lendas que Satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
á Senhora Duquesa de Brabante.

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais louro do que o sol, marmóreo e lindo,
tirar de uma viola estranhas mágoas,
pelas noites que os cravos vêm abrindo...

Dizem mais que na seda das varetas
do seu ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
- e os seus olhos mais fundos que as raízes!

Mas a Duquesa é triste. - Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente Dama de Brabante,
tem um filho horroroso... e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante.

É um filho horroroso e jamais visto! -
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto,
- pelos de fera, e uivos de animal!

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
aborto e horror da brava Natureza...
- Em vão tentam barões, com mil discursos,
desenrugar a fronte da Duquesa.

Sempre a Duquesa é triste. - Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Ora o monstro morreu. - Pelas arcadas
do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem vilões trigueiros das charruas.
Riem se os padres, junto ao seu jazigo.
Riem se nobres e peões nas ruas.

Riem aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
- Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!..

Só, sobre o esquife do disforme morto,
chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
- Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

Só ela chora pelo morto!.. A mágoa
lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
- Ao luar, sobre os tanques chora a água...
- Cantando, os rouxinóis lembram o céu...»