July 16th, 2007

rosas

shrek iii + die hard iv

Dois filmes no fim de semana, para tirar a barriga de misérias. O primeiro foi o Shrek The Third, que, tenho de confessar, vi assim um bocado em velocidade de cruzeiro, sem nunca me sentir demasiado envolvido na história do ogre. O humor e a qualidade dos diálogos é a mesma, mas o filme tem um certo sabor a requentado, e é claramente uma fórmula que está esgotada. Ao invés, a qualidade da animação é a melhor de sempre, com pormenores fabulosos, nomeadamente o requinte das expressões faciais dos bonecos.

Quanto à sequela de Die Hard, intitulada Live Free and Die Hard, o mínimo que se pode dizer é que é surpreendente. Surpreende em primeiro lugar a própria ideia de fazer uma nova sequela de uma série que parecia estar resolvida e terminada. E surpreende sobretudo que o filme tenha um certo ar de frescura, que se veja sem o tédio das fórmulas gastas. Aliás, é interessante porque todo o pressuposto narrativo assenta nas referências à personagem de John McClane e aos anteriores filmes da série, mas apesar disso aquilo que parece resultar menos bem no filme são precisamente essas referências, nomeadamente o humor da personagem que já pouco mais sugere que um sorriso de condescendência. Eu diria que, nestes 12 anos desde o anterior Die Hard, John McClane envelheceu, e isso nota-se na personagem, o que não é propriamente uma boa notícia.
Há dois aspectos que eu achei particularmente interessantes no filme (isto sem esquecer que estamos a falar de um filme de acção, de um blockbuster, digamos que a história do cinema não passa por este bairro), e em ambos o filme é bem um produto do tempo que vivemos, reflectindo bem os problemas e as angústias das nossas sociedades pós-11 de Setembro.
O primeiro tem, naturalmente, a ver com a premissa factual do ataque terrorista que o filme encena, e que é a possibilidade de um hacker promover o colapso de todos os sistemas informáticos que gerem os nossos subsistemas funcionais da vida em sociedade: redes de transportes, circuitos de abastecimento, fluxos financeiros e comerciais, sistemas de segurança, etc. Como se sabe, esse cenário é bem mais realista do que se poderia pensar, e vê-lo encenado é sempre uma fonte de inquietação.
O outro aspecto interessante do filme tem a ver com uma certa encenação do caos urbano. Não tanto o caos destruidor e aparatoso da sequência do túnel, que não passa de mais do mesmo, em termos de filmes de acção, mas antes a paralisia provocada pelo colapso dos tais sistemas de que falava no parágrafo anterior. Neste aspecto o filme reproduz, com o requinte estético da mise-en-scéne, imagens que nos recordam episódios bem reais da moderna vida quotidiana. Já nem é preciso falar de Londres ou Madrid nas horas que se seguiram aos atentados terroristas de 7 de Julho e 7 de Março, respectivamente; estava mais a pensar no célebre apagão que atingiu Nova Iorque e outras grandes cidades do leste americanos, há uns dois ou três verões, e que mostrou bem o que é o colapso da cidade quando os sistemas começam a falhar.
Aqui há uns anos rodou aí nas televisões um vídeo-clip de uma música de dança em que através de imagens de animação se iam mostrando de forma muito esquemática, através de diagramas e gráficos e circuitos, o funcionamento quotidiano das nossas sociedades. Temos um pouco a tendência para pensar que os sistemas em que se estrutura a nossa vida em sociedade são tão simples e infalíveis como os desse vídeo-clip. Não é a primeira vez que o cinema de Hollywood nos mostra o que acontece quando esses sistemas falham, estou-me a lembrar nomeadamente da Guerra dos Mundos de Steven Spielberg. O incómodo que este Die Hard acrescenta em relação à encenação do caos do filme de Spielberg é trazer esse desregulamento total para o centro da cidade, para o quarteirão financeiro, para o elevador da torre de escritórios em que trabalhamos.