July 13th, 2007

rosas

dias de são pedro. fragmentos. 2

À espera do fim da tarde.
Da varanda do quarto do hotel vejo os surfistas (em rigor são bodyboardistas, pelo menos a maioria) lá em baixo, na praia de São Pedro. Permanecem, em grupo de quatro, sentados na prancha, na zona que antecede a rebentação, à espera da onda certa. De vez em quando um deles arrisca uma onda, mas desiste logo a seguir. Entretanto, três deles retiram-se e fica só um, mais resiliente ou, quem sabe, mais desiludido. Sim, só quem já perdeu as ilusões continua à espera de uma onda que demora, que já não vem.

Este silêncio tem som. O rumor compassado das ondas. O piar das andorinhas, passando voos rasantes à moldura da varanda.

O hotel fica no final da rua principal de São Pedro, a Avenida da Liberdade, que corre direita desde a entrada da vila até terminar, aqui à frente, num pequeno largo em frente ao mar, sobre a falésia. Há carros que percorrem toda a avenida, estacionam, saem os ocupantes para deitar uma olhadela ao mar, e tornam a arrancar.
Mas houve este carro, de modelo antigo, que estacionou, e de lá de dentro saiu um homem, ainda novo, talvez a raiar os trinta anos, com barba, de calças azuis e camisa castanha. Saltou o muro de pedra, caminhou pelo trilho de terra batida até à extremidade da falésia, e sentou-se no chão, de pernas cruzadas, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos suportando o queixo, imóvel, a olhar o mar.
Senti vontade de descer e ir lá ter com ele. Como se tivesse alguma coisa para lhe dizer ou, melhor ainda, como se ele tivesse alguma coisa para me dizer. Mas entretanto o rapaz levantou-se, sacudiu as mãos e as roupas, apanhou qualquer coisa do chão. Entrou no carro, fez a manobra de inversão de marcha, e desapareceu pela avenida da liberdade fora.

A candura tem sempre o dom de me comover.
Ainda há pouco, estava no restaurante, e os comensais da mesa ao lado perguntaram se o melão era bom. O rapaz que estava a atender, impecável no seu fato e gravata, que todavia lhe ficava mais desajeitado do que elegante, respondeu que tinha de ir perguntar à mãe. Voltou passados momentos, informando que a mãe dizia que as meloas eram belíssimas. Os modos do rapaz, muito educados mas pouco desenvoltos, a simpatia com que falava e…, é isso, não encontro melhor palavra, a candura, que não é bem ingenuidade, mas é mais vir para a vida desprovido de cinismo, de cínicas defesas.
Provavelmente nada disto corresponde à realidade, mas não resisto a estes momentos, ou mesmo fracções de momento, em que a vida se apresenta desprovida de artifício. O rapaz, se fosse alguém calejado, com a dose certa de consciência profissional e sobretudo da sua própria imagem, responderia que ia à cozinha perguntar se os melões eram bons, sem desvendar a desarmada intimidade familiar. Mas este não. Vestiu-se com toda a verdade que possuía e respondeu, com candura, que tinha de ir perguntar à mãe.

Guia de restaurantes (entre parêntesis, o prato que eu comi): Pai dos Frangos (Arroz de Tamboril), Praia Velha, telefone 244599158; A Concha (Amêijoas à Bulhão Pato, Churrasco Misto), Rua Duquesa de Caminha, 16, telefone 244599150; Ancora Azul (Bife à casa), Rua Dr. Adolfo Leitão, 31, telefone 244599263; Estrela do Mar (Sargo grelhado), Avenida Marginal, telefone 244599245; Brisamar (Arroz do Mar), Rua Dr. Nicolau Bettencourt, telefone 244599250.
Os dois últimos são excelentes, e o da Praia Velha também é muito bom.