?

Log in

No account? Create an account

dias em são pedro. fragmentos.1
rosas
innersmile
Na baixa-mar da noite o areal da praia de São Pedro de Moel enche-se de pescadores. Sombras imóveis, quase invisíveis, não fosse o fantasmagórico branco das camisas e não se distinguiriam de encontro ao negro das rochas, ao negro rumor das ondas, ao negro infinito da abóbada celeste, apenas cruzada pela estrada fulgurante e imaterial da luz do farol.
Numa noite assim tudo pode acontecer, porque nada acontece. Recolhe-se cedo, que a noite é de quem não tem cicatrizes na memória. Dos puros cheios de presente, que é, como se sabe, o futuro hoje à noite.

Do que mais gosto em São Pedro de Moel é do ar retro. Parece que chegamos a um lugar que ficou preso nos anos sessenta e setenta, com a arquitectura modernista das vivendas. Além disso São Pedro já era como é hoje quando cá vim a primeira vez, em finais dos anos setenta (talvez em 1979?) Apesar de as pessoas não serem muito simpáticas, não é aquela horda que nesta altura do ano invade a beira-mar. E tem certo ar de requinte, um pouco ‘passé’, é certo, tipo restos de uma opulência antiga.

Depois do jantar dei uma volta sozinho pelo lugar e fui até às piscinas oceânicas. Tenho muitas lembranças que residem naquele lugar. Para além dos dias na piscina, foi numa sala de cinema que havia nesse complexo turístico que, durante umas férias em que estive acampado no parque da Orbitur, vi dois filmes essenciais, o Taxi Driver e o The Last Waltz, ambos do Martin Scorsese. Sim, muito provavelmente falo de outro país, esse onde nas vilas de veraneio, havia noites passadas a ver filmes do Scorsese, em salas cheias de pessoas.
Foi também no complexo das piscinas que fui, tanto quanto me lembro, pela primeira vez a uma discoteca. Já devia ter 17 ou, pelo menos, 16 anos! E tenho a ideia vaga de essa primeira ida à discoteca ter sido decepcionante – de algum modo eu achava que engatar fazia parte do programa, tal como fumar com ar experiente e beber águas tónicas. E é claro que não houve engate nenhum. Por se ter gorado o engate que eu, repetindo, achava que fazia parte da rotina obrigatória, senti-me o único virgem na sala. E provavelmente era, pois o meu companheiro de férias (e dono da tenda) era aquele tipo de pessoa que tinha de fazer as coisas na altura certa e por isso, quando chegou a altura que ele considerou certa para deixar de ser virgem, deve ter utilizado algum expediente para o efeito. E pior do que sentir-me o único virgem na sala, foi a clarividência de que seria sempre um tipo desqualificado para o amor, para o relacionamento amoroso.
Eventualmente, deixei de ser virgem. Mas a clarividência estava fulgurantemente certa.