July 9th, 2007

rosas

better, better, beta, bethânia

A primeira, e única, vez que tinha visto Maria Bethânia em palco foi em 1999 num concerto que deu a meias com Caetano Veloso no Pavilhão Atlântico, para comemorar o primeiro aniversário da inauguração da Expo98. A apresentação do show Dentro do Mar Tem Um Rio ontem, no CAE da Figueira da Foz, confirmou essa noção de que a presença de Bethânia em palco é mística e sagrada, majestosa e torrencial. Se há cantores em relação aos quais o palco é, muito mais do que a gravação, o lugar de plenitude e consagração (e o Brasil tem tantos artistas assim), esse é, por excelência, o caso de Bethânia.
O que é desde logo impressionante é o rigor da produção, a forma perfeita como o espectáculo é planeado e posto em cena, desde o encadeado das canções até aos cenários e figurinos (da cantora e dos músicos acompanhantes), passando pelas posições e pelos movimentos em palco. Mas o que é notável é que essa perfeição não retira um grama que seja de emoção e entrega. Aliás muito do segredo do sucesso da presença em palco de Bethânia passa pelo modo subtil e inteligente como a cantora vai doseando os diversos elementos, numa prestação que é simultaneamente sofisticada e simples, popular e erudita, alternando a festa do concerto com a intimidade do recital.
Quanto ao alinhamento, este show suporta-se fundamentalmente nos dois mais recentes discos de Bethânia, Mar de Sophia e Pirata, apostando na mistura (mais uma prova da inteligência de Bethânia) dos clássicos com a descoberta dos novos compositores. Não falta, numa sucessão que praticamente encadeia as canções umas nas outras, o momento de recordar uma outra faceta característica de Bethânia, ou de uma certa fase da sua carreira, a das canções sobre o desvario e a dor amorosa. Acompanham-na em palco sete músicos, com direcção musical e arranjos de Jaime Alem.
Foi um dos concertos do ano, sem dúvida, duas horas de encantamento e emoção pura. E para a magia da noite contribuem as óptimas condições do palco do CAE, quer em termos de qualidade de som, que sobretudo no que toca à iluminação, que tornam o palco um lugar verdadeiramente iluminado e luminoso.

No fim do concerto, quando vinha de carro de regresso a casa, estava tão embalado na voz de Bethânia que não tive paciência para ouvir o cd que tinha enfiado no auto-rádio. Quando é assim o melhor é pôr-me a fazer zapping pelas estações radiofónicas à espera que surja uma que convide (para utilizar o nome de um programa muito antigo) os passageiros da noite. Estava eu entretido a zappar estações de música pimba quando surge, quem mais?, a voz de Bethânia a cantar uma daquelas canções velhinhas de quase trinta anos (daquelas pelas quais valia a pena assistir às telenovelas), uma das clássicas canções de dor de corno que marcaram uma época.