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notícias de pequenópolis xvi
rosas
innersmile
Em Pequenópolis a linha de metro só tem uma estação. No entanto, e apesar do que se afirma à boca pequena, a estação de metro tem entradas dos dois lados da rua.


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Este regresso a Pequenópolis foi feito a meias com a Gaby.

agualusa: as mulheres do meu pai
rosas
innersmile
A minha leitura nestes cinco dias de férias foi As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa. Nunca tinha lido nada do escritor angolano, apesar de ter aqui em casa o livro Nação Crioula e, apesar dos apesares, de ser um escritor recomendadíssimo por meu mestre Saint-Clair.
Bom, adorei o livro! Mas adorei com A grande que, como se sabe, é o A de Amor. Primeiro por causa do humor, um humor malandro, mais à angolano (ou à brasileiro) do que à português. Depois pela mistura de ficção e realidade, já que o livro, quero dizer a história da viagem de Laurentina à procura do seu putativo pai, o músico Faustino Manso, é acompanhado pelas notas que o A. foi tirando numa viagem em tudo parecida com a dos seus protagonistas, e onde supostamente nasceu a ideia do livro. Aliás, o livro tem muitos planos, organiza-se quase como um dossiê, a quem nem faltam explicativas notas de rodapé, algumas delas escritas pelas próprias personagens.
Enquanto matéria romanesca, o livro é divertidíssimo, com personagens fortes e inesquecíveis (que fazem lembrar as poderosas personagens de Jorge Amado, sobretudo as mulheres), uma galeria notável, a que se juntam peripécias rocambolescas umas, mágicas e fantasistas outras, mas sempre muito bem cerzidas no tecido narrativo.
Além disso o livro apresenta-se como um brilhante ensaio sobre a África Austral de hoje, a que sobreviveu ao colonialismo e ao apartheid, às guerras civis, à destruição dos tecidos económicos e à sua substituição pelas economias paralelas da candonga e do safadismo. E ainda à que sobreviveu ao olhar tristonho e desajeitado de Portugal, que nunca soube muito bem o que fazer das colónias quando o eram, e continua a não saber muito bem como lidar com esses países que surgiram no seu lugar.
Tenho de confessar que a parte do livro que mais me comoveu foi a que se passa em Moçambique, nomeadamente em Maputo, em Quelimane e na Ilha de Moçambique. Comoveu-me reconhecer-me tanto nessas páginas do livro, nas histórias, nas referências, nos nomes, até nas citações. Não tanto no poema de Knopfli, mas sobretudo na referência a Jall Sinth Hussein, que é quase nada conhecido mas que é um dos meus poetas preferidos, cujo livro, breve, é uma das minhas bíblias poéticas.
Aliás este aspecto consubstancia muito bem o quanto eu gostei do livro. É um daqueles livros de que gostei tanto que adoraria tê-lo escrito, sinto-o meu, apropriei-me dele. De facto, As Mulheres do Meu Pai já não é bem um livro de José Eduardo Agualusa, escritor angolano, porque já é mais meu do que dele. Quer dizer, pelo menos o meu exemplar, todo sublinhado (a caneta, porque a certa altura faltou-me o lápis), com um mapa no final a imensa família de Faustino. Acho que é isso, o facto de o ter tornado tão meu, que faz do livro de Agualusa um livro tão feliz.