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anti-momento rome da semana
rosas
innersmile
O tipo ia jantar fora e por isso programou o gravador de video para gravar o episódio desta noite da série Rome. Mas como homem algum vale um óbolo de latão, o imbecil programou o aparelho para começar a gravar às 23:55 e terminar às 00:05!, e quando chegou a casa entreteve-se a ver os últimos 10 minutos do episódio.
Graças aos deuses, existe uma tal coisa de guia de episódios com a sinopse de todos os episódios (o de hoje, para acrescentar dano ao insulto, intitulou-se A Necessary Fiction) no site oficial da série, e para a semana há mais.


Talvez seja um bom momento para recordar o (des)conhecido aforismo: a vida sorri-lhe, com os seus dentes cariados.
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5 livros
rosas
innersmile
Não percebi muito bem se o desafio que me lançaram foi de falar dos últimos cinco livros que li ou se de cinco livros que recomendo. Como sempre, as regras do jogo fizeram-se para serem baralhadas, por isso vou destacar cinco livros daquilo que se poderia chamar uma biblioteca fundamental do romance gay português. Escolho apenas livros dos últimos vinte ou trinta anos (o mais antigo, se não estou em erro, é de 1982, e o mais recente tem poucas semanas de vida), e escolho apenas livros onde se protagoniza a homossexualidade masculina. De resto são obras muito variadas, de escopo e estilo muito diversos, e que de comum têm apenas o facto de a homossexualidade não ser o tema principal a tratar, mas de a condição homossexual dos personagens ser essencial à narrativa, conferindo-lhe uma marca distintiva.

Guilherme de Melo – A Sombra dos Dias. Romance autobiográfico, que me marcou por três razões: pelo relato de como era a vida no Moçambique colonial, pelo relato da experiência da descolonização e da deslocação para Portugal, e por ter sido a primeira vez que eu li num livro de vocação popular um relato tão desabrido e assumido da vivência de um homossexual. Além disso, deu-me (alguém se lembra?) o pretexto para fazer o meu outing aqui no livejournal.

Álamo Oliveira – Até Hoje (Memória de Cão). Outro romance fortemente marcado pela experiência pessoal do autor. É um clássico da literatura de guerra colonial portuguesa, um dos pioneiros nessa área, e um dos que tratou o tema com mais raiva, desencanto e mesmo com uma violenta crueza. Lateral à acção de guerra, mas sempre presente, mesmo quando inominada, a relação entre João e Fernando que, já no fim do livro, iria explodir, ou desabrochar, de uma forma linda mas tristíssima numa pensão da baixa de Lisboa.

Al Berto – Lunário. Com Al Berto as fronteiras são difusas e é difícil dizer se se trata de um romance, de uma colecção de poemas, de um relato de viagens. Mas este relato das aventuras de Beno à procura de um amor perdido, e sobretudo à procura de si próprio, do que fica para lá dos seus limites, é, para todos os que o lêem, uma experiência de confronto que nos transforma e transfigura como só os grandes romances conseguem fazer.

Frederico Lourenço – Pode Um Desejo Imenso. A trilogia, que além do romance homónimo inclui mais dois: O Curso das Estrelas, e À Beira do Mundo. Permanece para mim um mistério a razão porque FL é tão mal-amado por uma certa camada da nossa inteligentzia. FL é dono de uma escrita elegante, fluida, carregada de sentido e de significado, que tenta capturar a intensidade da nossa vida comum, numa mistura bem conseguida de frivolidade, erudição e muito humor.

Eduardo Pitta – Cidade Proibida. Edição recente, é uma obra monumental de pouco mais de uma centena de páginas. Romance social, de onde o tema da homossexualidade, derivado da condição dos principais protagonistas, quase nunca deixa de estar presente, não virando as costas às palavras e às descrições mais cruas. Serve também para incluir nesta lista outras duas obras essenciais do autor: a colecção de contos Persona, e o ensaio literário Fractura. Pitta talvez seja, na actualidade, o nosso mais assumido e consagrado ‘autor gay’.


Uma das discussões recorrentes que a literatura suscita tem a ver com a questão não tanto dos géneros literários mas com a das áreas temáticas: faz sentido falar em literatura feminina, da negritude, gay ou de iniciação e crescimento, como se fala em literatura de acção ou policial ou de espionagem? Pessoalmente acho que sim, e já o tenho afirmado por aqui. Comummente, a questão dos géneros é vista como uma certa guetização, e da parte dos leitores é recusada geralmente por duas razões: ou porque se quer ler um livro e se tem receio de ser contaminado pela classificação, ou porque se quer discriminar o autor, menorizando-o. Os escritores, como é óbvio, fogem da categorização como o diabo da cruz, com receio de se verem confinados a um nicho de leitores.
Para mim a categoria faz sentido, e reconheço-lhe um princípio de utilidade. Numa livraria (no estrangeiro, claro, por cá a única que conheço que utiliza essa prática é a Fnac do Chiado) serve para me orientar os passos para a secção onde vou encontrar determinados livros que me interessam. Porque é isso que está em causa: eu conhecer livros que me interessam particularmente. Sou um homem homossexual e por isso interessam-me as histórias em que a homossexualidade é analisada ou discutida. Exactamente da mesma forma como sou de origem moçambicana, e por isso interessa-me particularmente a literatura em que Moçambique é tema ou factor relevante. Alguns dos meus escritores preferidos, e com os quais a minha relação de leitor ultrapassa hoje a mera questão da orientação sexual, conheci-os precisamente por saber que eram gays ou escreviam sobre a homossexualidade e interessava-me saber o que tinham a dizer sobre o assunto. Aliás, muitos dos meus escritores preferidos conheci-os precisamente a vasculhar nas secções de literatura gay das livrarias inglesas.
Como tudo na vida, o facto de haver categorias literárias só nos aprisiona se nós quisermos, ou se tivermos essa predisposição intelectual. Caso contrário, acrescenta-nos, dá-nos coisas, torna-nos maiores, e isso só nos pode tornar mais livres. Um mapa pode aprisionar-nos a um determinado percurso. Mas também pode e deve fornecer-nos as rotas e os rumos que nos vão permitir fazer as nossas maiores descobertas.

Como nisto dos desafios e das correntes não devemos ser responsáveis pela sua interrupção, o desafio que aqui deixo a quem o quiser agarrar é o de completar esta lista com outras preferências pessoais da chamada literatura gay. Anyone for tennis?