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o jardim, lembras-te?
rosas
innersmile
Tenho saudades das pessoas, é claro, sobretudo da verdade que havia nos meus sentimentos em relação a elas, e de como a minha relação com elas se suportava tanto nesses sentimentos.
Mas acho que do que tenho mais saudades é do jardim. Desse jardim por onde passei quase diariamente durante dezasseis anos, quase sempre várias vezes ao dia. Nos últimos tempos, as duas viagens diárias que fazia através do jardim, a abrir e a fechar o dia, eram a única, ou das raras coisas apaziguadoras que me aconteciam durante o quotidiano ‘modo funcionário de viver’. E o jardim, talvez por ser votado ao desprezo que merecem as coisas sem valor utilitário, de tráfego, foi o que resistiu melhor, e mais intacto, à depredação dos bárbaros.
Tenho saudades da luz limpa da manhã, coada pela humidade da madrugada que se evolava das copas das árvores. Saudades do chilrear dos pássaros, desses cantos que, se prestarmos atenção, parecem contar histórias, conversas entabuladas apenas por quem conhece o misterioso segredo do voo. E saudades, muitas, das magnólias. Das duas, a do jardim de baixo, mais alegre e temperamental, garrida quando se cobria de flores rosadas, caprichosa quando floria da noite para o dia, e se despia nua do dia para a noite. E a do jardim de cima, imponente e perene, farol de um verde grave e sóbrio a pulsar na luxúria do jardim. Uma árvore majestosa, que, de tempos a tempos, oferecia à contemplação de quem fosse capaz de a ver, uma flor branca e aveludada, que se abria como uma explosão de luz.
É sim, é do jardim que tenho mais saudades. Do rumor da água. Das vozes distantes. Do aconchego e da tranquilidade. Da suspensão.