July 1st, 2007

rosas

anda pacheco

Estive aqui há dias a conversar numa sala de chat da Internet com um brasileiro, tipo culto e literato, que tinha há algum tempo feito uma passagem turística por Coimbra. Na deriva da conversa falou do Salazar e, como exemplo da marca infame que deixou em Portugal, da destruição da Alta de Coimbra e de como a ‘cidade universitária’ é uma ferida feia. Eu disse-lhe que não conseguia ver as coisas assim: conheci Coimbra já com o actual perfil arquitectónico da sua Universidade, foi nesta Universidade, assim desta maneira, com estes edifícios, que estudei, e por isso esta é a minha Coimbra natural, não consigo ter em relação ao espaço da Universidade distância sequer para dizer que é feia ou bonita. Depois, a pensar no assunto, cheguei até à conclusão de que não a acho feia, apesar de reconhecer que aquela monumentalidade um pouco marreca não deixa de facto de lhe dar a medida da nossa pequenez (nossa, de Coimbra, de Portugal e de Salazar e do seu estado novo).
Mas o que gosto na Universidade é sobretudo do facto de ter uma ideia de arquitectura. Um eixo universitário que começa na Praça da República, sobe as Monumentais, espraia-se no Largo Dom Dinis, atravessa em alameda os edifícios das Faculdades e vai terminar nos Gerais e na sua espécie de voo suspenso sobre o casco velho da cidade e sobre o rio. Dito assim, parece-me bem.

Lembrei-me desta história a propósito do livro que acabei de ler, A COVA DO LAGARTO, de Filomena Marona Beja (edição Sudoeste), e que é um romance biográfico sobre Duarte Pacheco. A iconografia popular diz-nos que Pacheco era o Albert Speer de Salazar, versão engenheiro civil, o homem que planeou e criou, ou pelo menos pôs em movimento, o estilo arquitectural do Estado Novo. O retrato que o livro dos devolve, não iludindo de todo essa crença, é a de um homem com visão, capaz de sonhar a obra futura olhando para o vazio presente, e sobretudo com capacidade de concretização, de dizer ‘faça-se’ ou, na expressão simbólica que a autora escolhe e com que termina todos os capítulos de livro à excepção do último, “adiante”! Também o retrato de um homem poderoso, mas que tinha de conquistar a pulso a execução dos seus sonhos, contrapondo a sua mentalidade desenvolvimentista ao imobilismo medíocre, financista e controlador de Salazar, afinal o homem que o próprio Duarte Pacheco tinha vindo buscar a Coimbra. Finalmente o retrato de um homem solitário, cujo mistério radicava mais na quase ausência de vida pessoal, resolvida em relações clandestinas ou de conveniência, e numa entrega tão obcecada quanto compulsiva ao trabalho.
Resulta igualmente do livro a existência de uma escol de arquitectos e engenheiros, capazes, independentemente das suas posições políticas e até sociais ou morais, de dar corpo a uma ideia. Além disso o livro retrata de forma impressiva o que era Portugal e Lisboa nas décadas de 30 e 40, de que era feita a sua paisagem rural e urbana, e de como esses homens, liderados por Pacheco, aspiravam a uma modernidade que, sendo do Regime, eram de certo modo maior do que ele. O estilo sincopado, cortante, pouco descritivo, da narrativa contribui para que essa retrato seja sempre mais psicológico do que físico, sempre mais cultural do que meramente geográfico. Com excepção do Buick negro e da pérola da gravata, ficamos sempre a conhecer melhor as mentalidades do que a iconografia.

Muitas vezes me apanhei, ao longo do livro, a comparar a capacidade concretização de Duarte Pacheco com o que se passa com os governantes da actualidade. É óbvio que as realidades e os contextos, e sobretudo as regras do jogo, são absolutamente incomparáveis, e não pretendo ter uma visão simplista sobre as coisas. Mas é impossível não nos lembrarmos, com ironia, da paralítica incapacidade de decidir dos actuais estadistas, por exemplo a propósito da construção do novo aeroporto de Lisboa, por confronto com o dinamismo e a vontade de fazer de Duarte Pacheco quando, nem a propósito, decidiu que Lisboa precisava de um aeroporto, foi estudar o local, a actual Portela, e mandou iniciarem-se de imediato os estudos preparatórios (não da localização, como agora, mas da própria obra) e as expropriações. Adiante!