June 29th, 2007

rosas

eugénia melo e castro

Gostei muito do concerto que ontem a Eugénia Melo e Castro deu no Gil Vicente, e que integra a digressão que ela está a fazer em diversos palcos portugueses (abriu em Lisboa e vai fechar no Porto) para promover o seu disco mais recente, PoPortugal.
A EMC não tem assim daquelas vozes mais potentes, não tem um vozeirão, mas tem a voz muito trabalhada, conhece muito bem a voz que tem, os seus limites e aprendeu a usá-la e a explorá-la de uma forma muito rica. Além disso tem um enorme bom gosto, além de um profundo e apurado sentido musical. Acho que é isto, ou seja, muito trabalho, muito instinto, e a dose certa de sorte e de right connections, que lhe tem permitido fazer uma carreira digníssima, sem nunca cavalgar as ondas do popularismo (mesmo quando lhe bateu à porta), criando um percurso que, visto à perspectiva de 25 anos, é pessoal, distinto, coerente e, sobretudo, interessante do ponto de vista musical. E boa de se ouvir que é a sua música.
O concerto de ontem revelou generosamente tudo isto. Muito bem doseados os clássicos do seu repertório, com os temas de Chico Buarque do disco Des-Cons-Tru-Ção e com os de clássicos da pop portuguesa do mais recente disco, sempre em versões muito trabalhadas e ‘personalizadas’, criando realmente novas versões, e não apenas variantes de temas conhecidos. Fiquei com muita vontade de conhecer o PoPortugal, e sobretudo o disco com canções de Chico Buarque que, a provar pelos arranjos e pelo bom gosto das amostras ouvidas, deve ser bem interessante.
Outro ponto altíssimo do concerto é a banda que acompanha EMC: 7 músicos excelentes, todos brasileiros, e a fantástica direcção musical, de facto uma pareceria com EMC, do guitarrista Eduardo Queirós.



Pena o Gil Vicente estar a meia casa, talvez menos, apesar de os poucos que estavam serem entusiastas e calorosos. Nos últimos anos tem-se assistido a uma diminuição na afluência de público ao GV, que tem sido gradual e constante. Já não me lembro de ver casa cheia há muito tempo; talvez na ópera, mas este ano nem nos festivais de blues e de jazz, pelo menos nas noites em que lá fui. Mas cada vez mais raro. É uma pena. Porque não me lembro de outras épocas em que o Gil Vicente tenha tido tanta oferta de espectáculos, e tão variados e bons e interessantes.
Não acredito que a crise e as dificuldades económicas expliquem o que quer que seja, porque nunca se viu tanto consumo como actualmente. Suspeito que as verdadeiras razões sejam bem mais profundas e bem mais graves e tristes.