June 22nd, 2007

rosas

o escritor mia, mas a caravana passa

Um dos meus maiores desgostos literários é a escrita de Mia Couto não me arrebatar como eu gostaria de ser arrebatado. Verdade que tenho sempre a maior das disponibilidades (e das vontades) para me apaixonar pela sua escrita poética e tão imaginativa e depurada, mas a verdade é que leio os livros de MC sempre mais com a cabeça do que com o coração, que é como eu gosto de ler. Não discuto, reconheço nele um dos maiores escritores actuais da língua portuguesa, de África (o que quer que isso queira dizer) e, é óbvio, de Moçambique. Não li todos os seus livros, mas li alguns, uns quatro, ou cinco, ou seis, não sei. O único que leio levezinho é, sintomaticamente, Gotas de Orvalho, um volume que reúne poesias antigas. Entretanto, MC anuncia um novo livro de poesia. Vou reincidir, naturalmente, por dever de interesse, mas também, mais uma vez, de espírito aberto e disponível.

Isto vem hoje a propósito de Mia Couto ter sido, há pouco, entrevistado na Rtp1 pela jornalista Judite de Sousa. E se a prosa de MC não o faz, ouvi-lo falar arrebata-me completamente (diria um cínico que então o que eu deveria fazer era comprar o áudio-livro!) Gosto do seu tom pausado de contador de estórias, gosto do rigor com que usa as palavras, e da falta de medo com que o faz, fascina-me aquele tom, aquela maneira de falar de quem sabe sempre muito mais do que diz, de quem sabe sempre muito mais do que eu, de quem já viu nos olhos aquilo que não deve ser visto.

Quanto à entrevistadora! Havia qualquer coisa na Judite de Sousa que me incomodava particularmente, e só hoje a ver a entrevista a Mia Couto, e a reflectir nela depois, é que percebi o que é. O facto é que a principal (ou uma das) entrevistadora do principal canal da televisão pública pura e simplesmente não ouve os seus entrevistados. Pura e simplesmente não escuta o que eles dizem. Tem as entrevistas muito bem preparadinhas, isso é verdade, mas limita-se a disparar as perguntas que traz do trabalho de casa, muitas delas resultado de determinada ideia feita que ela tem sobre o entrevistado, e depois fica ali, sentadinha na beira da cadeira, à espera da oportunidade para disparar a pergunta seguinte.
Eu sei que ela é entrevistadora, e não conversadora, e que a entrevista sai tanto melhor quanto mais preparado estiver o jornalista. Mas parece-me essencial, e a marca verdadeiramente distintiva entre um grande jornalista e um bom funcionário do jornalismo (e a entrevista é uma das modalidades nobres, juntamente com a reportagem, do jornalismo), saber ouvir o que o entrevistado está a dizer e ir reagindo a isso, apanhando as deixas, desenvolvendo ideias, incentivando cursos de raciocínio.
Mia Couto é um homem muito inteligente e informado, protagonista (cultural mas não só) de um país que nasceu há pouco mais de trinta anos, e o seu insight de Moçambique, da sua política mas sobretudo da sua cultura, é precioso. Além disso é um escritor muito atento aos seus próprios processos de escrita, muito consciente do seu ofício e sobretudo da sua condição, do modo como a vive e experimenta. E por isso as suas observações ao longo da entrevista, as suas respostas, os nacos de reflexão que ia debitando, eram verdadeiras pérolas que apetecia aprofundar, levar mais longe, esticar. Por vezes, havia mesmo a impressão de que Mia Couto esperava esse aprofundamento, dava numa primeira resposta uma deixa à espera de um filão. Pois bem, Judite de Sousa deixava-as morrer todas, ali paradinhas na área a pedir remate à baliza, só porque trazia de casa um guião que era preciso cumprir a todo o transe.
Sirva de exemplo a gracinha do final: a Judite de Sousa leu algures que nas línguas (em algumas, como corrigiu o entrevistado) moçambicanas não existe palavra para a ideia de futuro e achou que seria um brilharete contrapor a ideia de que não há amanhã com a despedida 'até amanhã, Mia Couto'. Saiu atabalhoado, o efeito perdeu-se, mas sobretudo ficou ali a definhar no ar a tentativa que Mia Couto ainda ensaiou de perceber (mais do que de explicar) o que é que significa essa falta de significante para o conceito de futuro.

[Agora por explicar também fica a razão porque me deu para estar aqui a desancar na pobre da Judite. A esta hora. Haja paciência! Vou mazé dormir…]