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mário laginha trio, espaço
rosas
innersmile
O ano passado o Mário Laginha editou o seu primeiro disco a solo, Canções & Fugas, uma obra belíssima e muito especial, que exige ao ouvinte uma atenção quase iniciática. Não é bem que seja um disco misterioso, não é nesse sentido, talvez mais no de que se trata de uma música tão delicada e subtil, com leituras tão finas, que o ouvinte como que se dispõe a fazer uma viagem para chegar ao interior, ao centro.
Um ano depois, Laginha volta a gravar, agora em trio, com Bernardo Moreira e Alexandre Frazão, e a impressão que se tem à primeira audição é que estamos a ouvir um clássico, um daqueles discos intemporais que parece que sempre conhecemos e que, daqui a muitos anos, vão continuar a soar da mesma forma fresca e ao mesmo tempo consagrada.
É com efeito um enorme disco de jazz, e um marco do jazz que se faz em Portugal, quer ao nível das composições, quer ao nível dos arranjos. Os temas têm musicalidade, mas ao mesmo tempo têm aquela pulsão quase febril do jazz, parece uma ânsia de liberdade, uma coisa ao mesmo tempo exaltante e tranquila, que nos preenche mas nos desperta o desejo de mais.
O disco é apresentado como uma encomenda da Trienal de Arquitectura e, nas palavras de Laginha, «O desafio agora será compor (…) relacionando a música quer com o espaço e o seu respectivo universo acústico, quer com a forma, ou a arte de delimitar esse mesmo espaço.» Uma das sublimes vantagens da música jazz (como em geral de toda a música instrumental) é propor-nos uma espécie de jogo, que podemos, com igual dose de liberdade e de legitimidade, recusar ou aceita ‘ir a jogo’, que é olharmos o mundo (a arquitectura, mas também qualquer outra coisa) através de uma linguagem muito técnica e especializada e codificada, que eu, como presumo a maior parte das pessoas, não domino, e à qual não acedo através do conhecimento ou da informação, mas sim através das emoções e dos sentimentos.
O que pretendo dizer é que se aceitarmos jogar o jogo que os músicos nos propõem, podemos efectivamente olhar a arquitectura, que é a forma humana (e nesse sentido artística) de construir a paisagem, o horizonte, com o dinamismo, a pulsão, a ânsia de liberdade, a exaltação ou a tranquilidade que esta música lhe confere.
E agora basta de divagações, para dizer que Espaço, é este o seu nome, é um disco obrigatório!
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