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o fotógrafo que fala
rosas
innersmile
Na sexta-feira à noite alguém me mandou uma sms a dizer para eu ver a Rtp2. Estava a passar um documentário (de que perdi obviamente o início) sobre o fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel, que eu nunca tinha visto, apesar de, tanto quanto sei, estar já a passar em repetição (RR – Ferro em Brasa, acho que é o título do filme, realizado por Licínio de Azevedo).
Conheço razoavelmente as fotografias do RR, e por isso, nesse aspecto, o maior interesse do filme foi ouvir o artista contar as histórias por detrás das imagens, as circunstâncias, criadas ou puramente casuais, em que as fotografias foram feitas, as histórias, umas fantásticas outras quase ingénuas de tão simples, dos seus protagonistas. Nas fotografias de Ricardo Rangel, nas mais antigas, está presente a mesmíssima cidade de Knopfli ou Craveirinha, e é delicioso e fascinante descobrir isso.
Na parte a que assisti, RR falou ainda das difíceis condições de vida dos negros, ou melhor dos não brancos no tempo da colónia, e de como o racismo era não apenas um pressuposto político, mas um efectivo elemento da estrutura e do ‘modus operandi’ da sociedade colonial.
Oportunidade ainda para ouvir Rangel falar, com indisfarçável amor, da sua colecção de discos de jazz (em vinil, pois claro, e gigantesca, pelo que se pode entrever), e para perceber como o jazz, para uma determinada camada da juventude lourenço-marquina, nos anos 50 e por aí à volta, era uma linguagem, e, mais do que isso, uma aspiração de liberdade.
Mas houve dois aspectos em particular que me emocionaram muito, e por eles adoraria arranjar uma cópia do filme, para guardar. O primeiro foi a presença do Luís Bernardo Honwana como entrevistador, ou melhor como interlocutor de Ricardo Rangel. A sua voz quase não é ouvida, o seu rosto aparece sempre a olhar atentamente o fotógrafo, mas estamos sempre a ouvir Rangel a interpelá-lo, a responder-lhe, a reagir-lhe. É interessante como ouvindo quase exclusivamente uma das partes, é tão claro que o que se passou ali foi um diálogo, uma verdadeira conversa, com dois protagonistas.
O outro aspecto que me chamou a atenção foi a maneira de Ricardo Rangel falar, o vocabulário, as expressões, a própria entoação das frases. Eu sei que Rangel é um dos nomes maiores, verdadeiro património, da cultura de Moçambique. Mas, desculpem lá o mau jeito, Rangel não fala moçambicano, mas sim laurentino. Fala como se falava antigamente, como falavam os jovens de Lourenço Marques da sua época. Usa aquelas expressões, ‘a miúda’, ‘a malta’, o uso repetitivo do ‘pá’, o modo de usar o tratamento por ‘tu’, com sentido de camaradagem, uma forma entusiasmada de contar as histórias. É incrível, mas a ouvir o Ricardo Rangel falar, parecia-me estar a ouvir o meu pai e um grupo de amigos velhotes (o meu pai é poucos anos mais novo do que Rangel) de café que ele tinha já cá em Coimbra, nomeadamente dois irmãos que falavam tal e qual como o Rangel fala, o mesmo tom malandro, brincalhão, o uso de um calão muito suave.