June 6th, 2007

rosas

macbeth

Digamos que não é muito fácil fazer um mau espectáculo a partir de uma das peças de Shakespeare. O texto é tão rico que, mais não seja, e desde que a voz dos actores se consiga ouvir na plateia, à falta de melhor podemos ficar ali, sossegados, deliciados, a ouvir as falas, os solilóquios, a tentar perceber os diversos sentidos da frase, e até, por vezes, a tentar perceber o que é que se está a passar!
Nas peças mais conhecidas este efeito ainda é mais evidente, porque então funciona o efeito de reconhecimento, sabemos e antecipamos o que se vai passar a seguir, comparamos traduções e diferentes aproximações ao texto.
Dito isto, podemos afirmar que a encenação de Bruno Bravo para Macbeth, co-produzida pelo Inatel/Teatro da Trindade e pelas Produções Teatrais Próspero, cumpre esse mínimo que transforma qualquer prestação de uma peça de William Shakespeare num acontecimento. O cenário é praticamente inexistente, tirando muito partido da iluminação e das projecções, o que está bem, tendo em conta o objectivo da itinerância. Pareceu-me que de uma forma geral o texto estava bem traduzido (trata-se de uma versão reduzida, adaptada para caber no tempo normal de um espectáculo teatral), o que é essencial quer para percebermos o sentido da acção quer para tirar pleno gozo da riqueza do texto; este aspecto é muito importante, um texto bem traduzido não só permite uma boa recepção, como sobretudo permite aos actores pegarem nas falas, assumirem o texto, dizê-lo em vez de o recitar.
O nível geral da representação, enfim, esteve ali entre o aceitável e o razoável. Os segundos cumpriram, o que nem sempre acontece, achei que a Lady Macbeth fazia um esforço para parecer intensa, o que retirava alguma eficácia à representação, António Rama cumpriu, passa-se qualquer coisa de estranho com Diogo Dória, havia a nítida preocupação de fazer passar um registo formal, grandiloquente, mas que ficou sempre muito baço, pouco convincente. Quanto a João Lagarto, ele é um actor formidável, com uma capacidade muito grande de projectar e uma voz muito capaz. Mas o seu desempenho foi muito desequilibrado. Excelente quando assumia o tom naturalista que o teatro de Shakespeare pede, aquele modo de dizer com naturalidade frases cheias de significado, o que lhes dá uma dimensão e uma profundidade assinaláveis, mas muito cabotino quando, como na generalidade da segunda parte, pretendia fazer da personagem um tolo e um doente mental, em acelerado processo de degenerescência, fragilizado pela culpa e totalmente consumido pelo vórtice de violência que ele próprio pôs em movimento. Claro que é isto que se passa com a personagem, mas, mais uma vez, é muito mais eficaz transmiti-lo seguindo limpinho o texto do que tentar mostrá-lo de forma tão evidente, o que resvala para a caricatura.
Parece-me, sem ser entendido, que as principais fragilidades do espectáculo são sobretudo a nível da encenação, nomeadamente algumas das opções tomadas. Sirvam de exemplo as fadas, desde o tipo de opção cenográfica à utilização das vozes esganiçadas (irritantes e imperceptíveis), não só não resultou como estragou a eficácia e a economia da peça.