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Em Louvor do Crunchie



Gosto muito de chocolate. Não sou viciado nem dependente, não tenho necessidade de comer muitas vezes, mas gosto bastante. Digamos que comer uma tablete de chocolate me dá, não tanto prazer, mas satisfação.

Gosto mais de chocolate de leite do que de chocolate negro, e aprecio-o em todas as formas, tablete, barras, bombons, com recheio e sem recheio, com licor ou com amêndoas. Não sou grande fã dos chocolates com recheio de menta, cujo paradigma é o After Eight, mas se for preciso também como. Contudo, e em princípio, prefiro o chocolate mais puro, quanto menos mistura de sabor melhor. Por isso, gosto de uma bela tablete de chocolate, com uma certa altura para fazer volume na boca, com os quadradinhos bem delimitados, de forma a quebrar direito sem esmigalhar. Se tiver umas avelãs, óptimo. Se for redondinho, com piquinhos e se chamar Ferrero Rocher, óptimo na mesma.

Mas o meu chocolate favorito, de sempre, é o Crunchie, da Cadbury’s, em barra, com embalagem dourada em folha de alumínio com letras gordas vermelhas (não confundir com o Crunch, da Nestlé, em tablete, com embalagem de papel plastificado azul).

Não me recordo de mais nenhum chocolate que comia na infância. Com certeza que comia outros, o que me aparecia à frente, mas o Crunchie é o único de que me lembro com clareza. Se eu fosse o decorador do filme da minha infância, teria de haver embalagens de Crunchie, porque quando eu penso na minha infância ela própria tem um certo aspecto de papel de alumínio dourado com gordas letras vermelhas (outras vezes parece uma gambiarra de Natal muito antiga ou uma mala de plástico cheia de carrinhos da Matchbox ou um globo de vidro com muitos peixinhos guppies).

A disponibilidade de Crunchies na geografia da minha infância teria certamente a ver com o facto de Moçambique ser vizinho da África do Sul, onde as empresas inglesas, como a Cadbury’s, escoavam os seus produtos. Por isso a vinda para Portugal acabou com os Crunchies e eu tenho uma vaguíssima ideia de, durante a adolescência, ter saudades de os comer.

A minha ida para Londres em 1984 trouxe-me de volta os Crunchies. Lembro-me de que mesmo durante a pior fase de debilidade e astenia, era das raras coisas que eu comia com gosto. Nessa altura, em que eu pesava menos sete quilos do que a metade do que peso agora (credo!), não conseguia sequer comer uma barra inteira, apenas uma trincadelazinha de cada vez, uma barra durava dias. Mas nunca parei de comer Crunchies. Nesses anos, cada vez que ia a Londres vinha sempre carregado com stock de Crunchies para várias semanas, que ia rateando de forma a durar alguns meses.

Felizmente, em 1986 Portugal aderiu à CEE, hoje União Europeia, o mercado abriu as portas, e a Cadbury’s começou a comercializar a sua gama de produtos, primeiro em raros supermercados, depois, com a invasão da sociedade de consumo, em tudo o que é café e grande superfície. Mas a minha sensação de privação era de tal monta que, mesmo depois disso, demorei algum tempo a perder o hábito de vir de Londres sempre carregadíssimo de barras de chocolate (hábito que substituí pelo mais pesado de vir carregado de livros, e que persistiu até à chegada da livraria on-line Amazon e do mb-net).

Hoje em dia é raro comer um Crunchie. Primeiro porque a sua comercialização não está muito generalizada (perde claramente, em exposição, para os concorrentes Mars ou Twix). Depois, porque com a velhice a minha necessidade de hidratos de carbono e de calorias e de gordura, de energia em suma, reduziu drasticamente. Mas um dia destes parei numa estação de serviço da auto-estrada para meter gasolina e quando fui pagar à loja procurei no escaparate rebuçados para a garganta e lá estava, brilhante na sua folha finíssima de alumínio dourado com gordas letras vermelhas, o Crunchie. Claro que trouxe um, e lembrei-me do facto de, quando estava doente, uma barra me durar vários dias, porque esta durou da área de serviço de Leiria até pouco depois da saída de Leiria (estou a falar da A1, sentido Sul-Norte) a uma média de 130 quilómetros por hora. Ou seja, 5 minutos!

Como dizia no início, poucas coisas me dão mais satisfação do que comer uma barra de Crunchie. Sabe-me sempre a infância.