May 28th, 2007

rosas

cidade proibida

Li num fôlego o livro de Eduardo Pitta, Cidade Proibida. O facto de o livro ser curto ajudou, mas a brevidade (em mim, que leio muito devagar) deveu-se sobretudo à autoridade narrativa do autor. Não é muito frequente, e sobretudo em língua portuguesa, uma voz narrativa tão segura e tão rigorosa. Não há grama de gordura (digo eu, que não fiz uma close reading, e esta primeira leitura foi mesmo deslizante) neste texto que se move sempre para a frente (mesmo quando está em flashback) e mesmo algumas derivas narrativas, que poderiam distrair a economia do texto, nunca são supérfluas e muito menos entediantes.

Claro que nem tudo é bom, e um texto assim tão seco necessariamente teria de desaguar num texto curto. Mas isso é outro dos aspectos curiosos do livro. Apesar do brevíssimo número de páginas, chegamos ao fim com a sensação não de que lemos uma novela ligeira (não tanto no sentido de leve mas no de leda), mas um verdadeiro romance (passo a taxionomia dos géneros, não domino a matéria), uma história complexa, com camadas diversas, com vozes e com leituras variadas, com enredos e sub-enredos, com peripécias, com tempos narrativos diferentes, com pontes para acontecimentos históricos, uns mais ancorados na realidade outros mais coerentes com a própria trama do romance, com temas e fugas. Tudo isto, como digo, em pouco mais de uma centena de páginas (para mais com um tipo generoso), capítulos curtos (que é preciso segurar o leitor), e um domínio da palavra e da frase que impressiona de tão rico e rigoroso.

Claro que esta segurança de mão não é novidade para quem segue a literatura do autor, sobretudo a prosa, quer literária quer ensaística, quer mesmo a que diariamente despende, mas nunca desperdiça, no blog Da Literatura. Até os tiques estão presentes, uma certa sobranceria de casta, o toquezinho de sofisticação snob dos vinhos, da gastronomia, dos ambientes bcbg. Mas, aliás como sempre em Pitta, nunca soa a pedantismo bacoco ou parvenu, e, o que é mais importante para o caso, nunca atrapalha a desenvoltura narrativa, antes ajuda a compor os ambientes em que a história se desenrola.

Ah pois, e a história? Uma breve passagem pelos blogs que se referem ao livro, destaca sobretudo (ou exclusivamente?) o aspecto ‘gay’ do livro. Creio mesmo que li uma ou duas referências ao facto de este ser o primeiro romance gay português ou o primeiro que os autores dos textos tinham lido! A ser o primeiro, só poderá ser o primeiro depois de todos os outros, mesmo recorrendo a critérios mais ou menos judiciosos de exclusão (este não porque sim, aquele não porque também) Não sou nada avesso a aceitarmos a existência de um literatura gay (e já o tenho dito aqui): para mim a classificação por géneros nunca deve ser, e nunca foi, uma prisão, mas sim uma rota, um fio condutor.

Procuro livros com temáticas que me interessam, que me ajudem a perceber o mundo e o meu lugar nele.
E o livro de Pitta é generosamente gay: nas personagens, na trama, nas referências, e sobretudo, o que me parece que tem causado mais perturbação nas hostes, nas descrições das práticas sexuais (apesar de quem já não ser virgem em ‘literatura gay’ ter certamente lido descrições mais atrevidas, mesmo em português). A questão é que já é velha: de tanto apontarmos o dedo à lua, já só vemos o dedo.

Cidade Proibida não se esgota, obviamente, nos aspectos gay das temáticas que aborda. Como qualquer obra literária que se preze (e nessa medida como toda e qualquer obra do que se possa denominar por literatura gay), o romance de Pitta oferece-nos uma visão do mundo, e neste caso de um determinado mundo português, em que as prerrogativas e os privilégios de classe não conseguem salvar as personagens da perda e do isolamento a que as regras e o sistema de conformidades os condenam.

O autor (que temos a ilusão de conhecer só porque o lemos diariamente no blog) tem uma história para contar, e é só essa a história que ele tem para nos contar. As personagens, a trama, as referências, e sobretudo o sexo, são gays? Pois são, e ainda bem que o são. Porque assim o romance é autêntico, é fiel a si próprio, é honesto e verdadeiro. Porque assim o que o livro nos devolve é a exacta percepção do mundo do narrador, daquele narrador. Ele fala-nos do que conhece. A diferença entre a boa e a má literatura é que quando é boa temos sempre qualquer coisa aprender com a particular visão do mundo que ela nos oferece. Mesmo, ou sobretudo, quando não é a nossa.