May 23rd, 2007

rosas

companhia paulo ribeiro

A impressão mais imediata que nos deixa o espectáculo da Companhia Paulo Ribeiro, Malgré Nous, Nous Étions Là, é de surpresa. Tudo é surpreendente. E desarmante. É um espectáculo tão desarmante, tão desprovido de artificialismo, que é impossível não nos entregarmos desde os primeiros momentos, desde a primeira vez que Paulo Ribeiro se dirige ao público, desde os primeiros passos que Paulo Ribeiro e Leonor Keil ensaiam ao redor do palco.
Dizer que se trata de uma peça marcada por enorme simplicidade não significa dizer que é simplista, ou elementar, a sua proposta. Pelo contrário, a ironia que mais do que uma vez se explicita é como que a margem visível da inteligente complexidade que percorre a obra, que, sendo sempre o que parece, é sempre mais do que aparenta. E é esta dualidade, a de ser o que mostra mas simultaneamente ser outra coisa mais, que torna a coreografia verdadeiramente extraordinária.
Começa por se apresentar como uma espécie de pausa para balanço, um momento reflexivo em relação ao ideário coreográfico do autor, mas é uma proposta arrojada e inovadora, que explora não tanto os limites, como as potencialidades de um determinado vocabulário, nomeadamente face à inevitabilidade do envelhecimento do corpo.
Além disso apresenta-se como um momento de intimidade, quase que de exposição, mais uma vez desprovida de cinismo. Mas é sempre, et pour cause, uma intimidade encenada, coreografada. E se esse exercício de exposição é sempre sincero, não deve ser tomado à letra. Digamos que é aquela parte da intimidade que pode ser construída, montada, levada à cena.
Ainda noutro aspecto Paulo Ribeiro consegue uma coisa extremamente subtil e por isso tão difícil: mostrar uma cumplicidade entre os dois bailarinos, que quase nos convence (ou que nos convence por inteiro se aceitarmos jogar o jogo da ilusão que é sempre o espectáculo) de que há uma camada de informalidade na execução. E é tão perfeita essa ilusão que não se conseguem vislumbrar as costuras da camada de rigor, da arquitectura exacta e racional que está na base do projecto coreográfico.
Em suma, surpresa, humor, intimidade, mas também arrojo e rigor, parecem ser as notas dominantes de um espectáculo terno e inesquecível, em que uma aparente despretensão nunca esconde a razão essencial desta coreografia, qual seja a de levar à cena uma irresistível vontade de dançar.