May 17th, 2007

rosas

século passado

Século Passado, de Jorge da Silva Melo, recolhe, em considerável volume, e na sua maioria, crónicas anteriormente publicadas em jornal, mas também textos soltos, inéditos, etc. Tratando-se, por isso, de textos já anteriormente publicados, o segredo do livro, para além da escrita elegante e solta, está na forma como se organiza, como os textos se ordenam e vão formando capítulos, e é essa organização que lhe dá um estatuto de quase biografia, um inventário memorialístico de uma vida dedicada, por prazer antes de por dever profissional, à cultura e às artes em geral.
Este é, de resto, um dos aspectos curiosos do livro, ele constituir-se quase como uma enciclopédia comentada, e opinada, sobre diversos assuntos e autores, tornando-o numa obra de referência e consulta quando queremos confrontar uma opinião sobre um filme, uma peça, um livro ou um quadro de pintura.
Outra das coisas que sobressai no livro é que, embora nunca deixando o autor de se situar a si próprio no centro das suas actividades, vivências e encontros, a verdade é que o livro se vai sempre construindo através dos outros, da disponibilidade e da atenção e até da mesa curiosidade que o autor dedica aos outros, aos criadores e às suas obras, aos seus fascínios com determinados filmes ou com determinados actores, até a aventura de descobrir e passear por cidades, pelos lugares que, afinal, são sempre habitados pelos outros, sendo que é precisamente essa condição (a de serem sempre lugares outros, lugares de outros) que os tornam fascinantes e irresistíveis.

Jorge Silva Melo é um artista profícuo, encenador teatral, realizador de filmes, e, descubro-o agora ao ver os textos todos alinhados (apesar de eu guardar memória de alguns deles, que foi publicando no Público, particularmente no Mil Folhas de tão boa memória), um excelente escritor e cronista. Vi algumas das suas peças: assim de cor recordo um assombroso O Fim ou Tende Piedade de Nós, e ainda as encenações que fez para Coriolano de Shakespeare, e para Baal, de B. Brecht. Mas, tanto quanto me lembro, foi um filme que primeiro me suscitou a curiosidade em relação ao autor: falo de Agosto, uma obra que filma com elegância e serenidade o desvario do desejo. Vi mais alguns filmes de JSM, nomeadamente a versão filmada do espectáculo António, Um Rapaz de Lisboa e Coitado do Jorge. Uma destas noites, depois de ler os textos que no livro dedica à actriz Glicínia Quartin, vi o documentário Conversas com Glicínia, cujo dvd tinha comprado aqui há tempo, mas que ainda não tinha visto. Há neste documentário, que na sua grande maioria se dedica a filmar em plano mais ou menos fixo a actriz enquanto conta histórias da sua vida, uma emoção, um fascínio, mesmo uma sedução, tanto maiores quanto maior a simplicidade dos processos. Ficamos a amar Glicínia precisamente porque a câmara ama Glicínia.

Voltando ao livro, é precioso que, nesta época de blooks (aprendi a palavra um dia destes, refere-se aos livros que nasceram em blogs), ainda seja possível construir um livro de crónicas à pura e dura maneira clássica, ou seja, reunindo textos previamente publicados em jornais. Ainda que durante a leitura de Século Passado não deixemos de reparar que os textos dariam entradas perfeitas para um blog. Pelo menos para um como eu gostaria de ser capaz de escrever.