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rosas
innersmile
PAULO

Paulo foi o primeiro a entrar na zona de gabinetes reservada à administração do hospital. Passavam poucos minutos das oito da manhã, e depressa os corredores e os gabinetes se encheriam de pessoas, de bulício e de tensão, e ele queria estar um pouco em sossego, contemplando não apenas o dia que começava, mas sobretudo esta etapa profissional e o peso que ela tinha na sua vida. Era o seu segundo dia de trabalho, e a véspera tinha sido ocupada com reuniões, visitas, enfim, com os pró-formas burocráticos habituais numa admissão.

Da janela do gabinete, Paulo tinha uma visão razoável do conjunto do campus hospitalar: ao lado do edifício do ambulatório, em cujo piso mais elevado se localizava o seu gabinete, ficava o pavilhão do internamento e do bloco operatório, em frente os laboratórios e, mais ao lado, já a fugir do ângulo de visão, o pavilhão dos serviços de apoio. Os edifícios eram todos recentes, uns mais novos do que outros, e por isso não havia nada que lhe fosse familiar ou que lhe despertasse recordações. E no entanto, logo na véspera, nos seus primeiros momentos no novo trabalho, enquanto esperava pela chegada do administrador sénior que o deveria acolher, Paulo sentiu-se invadir, lenta mas insidiosamente, por uma vaga de desânimo, pesada e cinzenta, como uma nuvem que entrasse pela frincha rasteira da porta, lhe tomasse os pés e fosse subindo pelas pernas. De facto, Paulo sentiu esse mal-estar antes de tomar consciência dele, foi uma sensação física anterior a qualquer tentativa de racionalização, como quando acordamos durante a noite sem razão aparente e ao fim de uns minutos começamos a sentir o incómodo de uma dor.

Tinham-se passado mais de vinte anos desde que Paulo estivera doente, e passara meses intermináveis a entrar e a sair daquele mesmo hospital. Primeiro nos exames que tentavam descobrir uma causa para os estranhos acontecimentos que ocorriam no seu corpo, depois a angústia das notícias terríveis e das decisões terapêuticas, o internamento e duas intervenções cirúrgicas e, por fim, a perspectiva desanimadora dos tratamentos intermináveis. À sua volta montou-se um circo de medo e apreensão. Houve amigos que desapareceram, outros que mais valia terem desaparecido, muito poucos os que ficaram e foram importantes.

E no meio desse circo, como as pistas centrais de uma tenda dolorosa, o hospital, com as suas rotinas e as suas regras, a burocracia absurda da dor institucionalizada, os rituais que parecem retirar sentido ao que nos consome o íntimo. A recordação de Paulo é a de uma tristeza enorme e conformada, quase uma entrega a uma via dolorosa que, por paradoxo, parece ser a fonte de alimentação de todo um sistema, de outras vidas que se prolongam para além do ponto de contacto de uma consulta médica ou de um posto de recolha de sangue.

E agora, tanto tempo depois, a vida parecia tornar a escolhê-lo como objecto de cruel e insondável divertimento. O resultado sempre arbitrário de um concurso colocava-o de novo naquele hospital, naquele de entre todos os da imensa lista que fora obrigado a preencher. A princípio, Paulo nem sentiu a associação. Com o tempo vem uma certa insensibilidade profissional e as instituições passam a ser meros nomes, peças num catálogo que classificamos de acordo com determinadas variáveis. Mas não decorreram dias, apenas algumas horas, para que o facto lhe ressoasse, e com estrondo, no espírito. Aquele posto de trabalho que tinha saído na rifa era como a cratera de um vulcão adormecido, ou, mais literalmente, como uma cicatriz estraçalhando a lisura da pele, a cuja presença nos habituámos mas que é sempre um farol de mágoa a pulsar nas escarpas dos dias que passam.

Mas mesmo assim, Paulo racionalizou, achou que essa era uma circunstância com que conseguiria lidar. Achou, e bem, que já pouco naquela instituição lhe lembraria o horror desses dias tão distantes, eram outras as pessoas, era outro o tempo, eram outros os lugares e os próprios edifícios, e Paulo acreditava que a arquitectura dos sentimentos também é fruto das geografias que mudam. Afinal, vinte e quatro horas bastaram para que reconhecesse a insidiosa angústia do animal acossado, o familiar travo amargo de ser uma amostra num tubo de ensaio prestes a expirar o prazo de validade.

Talvez tenha sido dos exames médicos a que fora submetido como parte da rotina da admissão de novos funcionários. Apesar de trabalhar em hospitais há muitos anos, Paulo evitava o mais que podia colocar-se na posição de utente, desperdiçando todas as oportunidades que ser um trabalhador da casa lhe oferecia para procurar ajuda ou conselho ao mínimo sintoma. Desde que tinha tido alta daquele mesmo hospital que agora contemplava do alto do seu gabinete de trabalho, Paulo fugia a consultas, análises ou outros exames clínicos. Aprendera a lidar com as suas ansiedades e os seus medos, aprendera a ultrapassar os terrores nocturnos e os súbitos ataques de pânico, e evitar submeter-se à perfunctória curiosidade clínica fazia parte da sua estratégia de sobrevivência mental.

Por isso, quando soube que tinha de ir a uma consulta de saúde ocupacional e fazer uma bateria de exames de rotina, Paulo até achou que era uma boa oportunidade de fazer o check up necessário mas sempre adiado. Porém, mal se sentou na cadeira em frente ao médico, Paulo tornou a sentir-se insignificante e despersonalizado, sozinho no seu desânimo, numa espécie de hipersensibilidade de atenção e alerta, provocada pelo instinto de sobrevivência quando, por alguma razão, o nosso inconsciente se sente ameaçado.

Agora esperava os resultados desses exames e, apesar de saber, fria e racionalmente, que estava tudo bem, que respirava a saúde e a vitalidade própria de uma pessoa da sua idade, Paulo não conseguia evitar sentir-se na corda bamba, um criminoso involuntário à espera do implacável veredicto do júri. Tentou sacudir a angústia. Mas a brancura dos edifícios à luz limpa da manhã não lhe arrancava o negrume que pesava nas pálpebras. Então tomou consciência de que, efectivamente, o que sentia era uma imensa vontade de chorar, uma vontade de chorar antiga e devastadora, desolada e torrencial, de lágrimas abundantes e grossas que pediam, há mais de vinte anos, para serem soltas. Paulo sentiu a pressão dos olhos a humedecerem, a encherem-se de lágrimas, a ficarem rasos de água. Mas nesse momento o telefone tocou. O primeiro telefonema do dia, dos muitos que certamente se seguiriam. Voltando costas à janela, Paulo tossicou para aclarar a voz e levantou o auscultador do telefone.



[Nota: a versão do conto que se apresenta acima foi editada pelo Saint-Clair Stockler, que tem a amabilidade (e o espírito de sacrifício) de ler com atenção, mais do que a que mereço, o que escrevo. Claro que a versão editada é incomparavelmente melhor do que a original, prova da enorme competência, para não falar do talento, do Saint no que à língua e à escrita literária diz respeito. Que desperdice uma e outro a corrigir o que escrevo só acrescenta gratidão ao amor.

Paulo foi o primeiro a entrar na zona de gabinetes reservada à administração do hospital. Passavam poucos minutos das oito da manhã, e depressa os corredores e os gabinetes se encheriam de pessoas, de bulício e de tensão, e ele queria estar um pouco em sossego, contemplando não apenas o dia que começava, mas sobretudo mais esta etapa profissional e o peso que ela tinha na sua vida. Era o seu segundo dia de trabalho, e a véspera tinha sido ocupada com reuniões, visitas, enfim com os pró-formas burocráticos habituais numa admissão.

Da janela do gabinete, Paulo tinha uma visão razoável do conjunto do campus hospitalar: ao lado do edifício do ambulatório, em cujo piso mais elevado se localizava o seu gabinete, ficava o pavilhão do internamento e do bloco operatório, em frente os laboratórios, e, mais ao lado, já a fugir do ângulo de visão, o pavilhão dos serviços de apoio. Os edifícios eram todos recentes, uns mais novos do que outros, e por isso não havia nada que lhe fosse familiar ou que lhe despertasse recordações. E no entanto, logo na véspera, nos seus primeiros momentos no novo trabalho, enquanto esperava pela chegada do administrador sénior que o deveria acolher, Paulo sentiu-se invadir, lenta mas insidiosamente, por uma vaga de desânimo, pesada e cinzenta, como uma nuvem que entrasse pela frincha rasteira da porta, lhe tomasse os pés e fosse subindo pelas pernas. De facto, Paulo sentiu esse mal-estar antes de tomar consciência dele, foi uma sensação física anterior a qualquer tentativa de racionalização, como quando acordamos durante a noite sem razão aparente e ao fim de uns minutos começamos a sentir o incómodo de uma dor.

Tinham-se passado mais de vinte anos desde que Paulo estivera doente, e passara meses intermináveis a entrar e a sair daquele mesmo hospital. Primeiro nos exames que tentavam descobrir uma causa para os estranhos acontecimentos que ocorriam no seu corpo, depois a angústia das notícias terríveis e das decisões terapêuticas, o internamento e duas intervenções cirúrgicas, e, por fim, a perspectiva desanimadora dos tratamentos intermináveis. À sua volta montou-se um circo de medo e apreensão. Houve amigos de desapareceram, outros que mais valia terem desaparecido, muito poucos os que ficaram e foram importantes.

E no meio desse circo, como as pistas centrais de uma tenda dolorosa, o hospital, com as suas rotinas e as suas regras, a burocracia absurda da dor institucionalizada, os rituais que parecem retirar sentido ao que nos consome o íntimo. A recordação de Paulo é a de uma tristeza enorme e conformada, quase uma entrega a uma via dolorosa que, por paradoxo, parece ser a fonte de alimentação de todo um sistema, de outras vidas que se prolongam para além do ponto de contacto de uma consulta médica ou de um posto de recolha de sangue.

E agora, tanto tempo depois, a vida parecia tornar a escolhê-lo como objecto de cruel e insondável divertimento. O resultado sempre arbitrário de um concurso colocava-o de novo naquele hospital, naquele de entre todos os da imensa lista que fora obrigado a preencher. A princípio, Paulo nem sentiu a associação. Com o tempo vem uma certa insensibilidade profissional e as instituições passam a ser meros nomes, peças num catálogo que classificamos de acordo com certas variáveis. Mas não decorreram dias, apenas algumas horas, para que o facto lhe ressoasse, e com estrondo, no espírito. Aquele posto de trabalho que tinha saído na rifa era como a cratera de um vulcão adormecido, ou, mais literalmente, como uma cicatriz estraçalhando a lisura da pele, a cuja presença nos habituámos mas que é sempre um farol de mágoa a pulsar nas escarpas dos dias que passam.

Mas mesmo assim, Paulo racionalizou, achou que essa era uma circunstância com que conseguiria lidar. Achou, e bem, que já pouco naquela instituição lhe lembraria o horror desses dias tão distantes, eram outras as pessoas, era outro o tempo, eram outros os lugares e os próprios edifícios, e Paulo acreditava que a arquitectura dos sentimentos também é fruto das geografias que mudam. Mas afinal vinte e quatro horas bastaram para que reconhecesse a insidiosa angústia do animal acossado, o familiar travo amargo de ser uma amostra num tubo de ensaio prestes a expirar o prazo de validade.

Talvez tenha sido dos exames médicos a que tinha sido obrigado a submeter-se como parte da rotina da admissão de novos funcionários. Apesar de trabalhar em hospitais há muitos anos, Paulo evitava o mais que podia colocar-se na posição de utente, desperdiçando todas as oportunidades que ser um trabalhador da casa lhe oferecia para procurar ajuda ou conselho ao mínimo sintoma. Desde que tinha tido alta daquele mesmo hospital que agora contemplava do alto do seu gabinete de trabalho, Paulo fugia a consultas, análises ou outros exames clínicos. Aprendera a lidar com as suas ansiedades e os seus medos, aprendera a ultrapassar os terrores nocturnos e os súbitos ataques de pânico, e evitar submeter-se à perfunctória curiosidade clínica fazia parte da sua estratégia de sobrevivência mental.

E quando soube que tinha de ir a uma consulta de saúde ocupacional e fazer uma bateria de exames de rotina, Paulo até achou que era uma boa oportunidade de fazer o check out necessário mas sempre adiado Mas mal se sentou na cadeira em frente ao médico, Paulo tornou a sentir-se insignificante e despersonalizado, sozinho no seu desânimo, mas também numa espécie de hipersensibilidade de atenção e alerta, provocada pelo instinto de sobrevivência quando, por alguma razão, o nosso inconsciente se sente ameaçado.

Agora esperava os resultados desses exames, e apesar de saber, fria e racionalmente, que estava tudo nem, que respirava a saúde e a vitalidade própria de uma pessoa da sua idade, Paulo não conseguia evitar sentir-se na corda bamba, um criminoso involuntário à espera do implacável veredicto do júri. Tentou sacudir a angústia. Mas a brancura dos edifícios à luz limpa da manhã não lhe arrancava o negrume que lhe pesava as pálpebras. Então tomou consciência de que efectivamente o que sentia, era uma imensa vontade de chorar, uma vontade de chorar antiga e devastadora, desolada e torrencial, de lágrimas abundantes e grossas que pediam, há mais de vinte anos, para serem soltas. Paulo sentiu a pressão dos olhos a humedecerem, a encherem-se de lágrimas, a ficarem rasos de água. Mas nesse momento o telefone tocou. O primeiro telefonema do dia, dos muitos que certamente se seguiriam. Voltando costas à janela, Paulo tossicou para aclarar a voz e levantou o auscultador do telefone.
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