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(no subject)
rosas
innersmile
A capa do jornal do dia devolve-nos, mas a que preço?, a certeza de que, afinal, ainda resta pureza, e espanto, e espaço para o horror, no nosso olhar. Quando julgávamos que os olhos cansados de ver já não se fechavam ao horror dos dias, ei-los que afinal se desviam perante o inimaginável.
Nesta fotografia da capa do jornal, a imagem desfocada do corpo de uma mulher, seminua, o tronco envolto numa vestimenta cor-de-rosa, nos quadris a marca reduzida de uma peça de roupa interior. Parece, porque há pés calçados ao seu redor, que o corpo da mulher está deitado no solo, e uma mancha negra, o cabelo?, espalha-se em redor da cabeça. Não nos diz mais nada, a foto.
Não nos diz, por exemplo, que a mulher da fotografia afinal não era uma mulher, mas uma rapariga de dezassete anos. Não nos diz que a rapariga era de uma aldeia do Curdistão, nem que se apaixonou pelo homem errado. Ou melhor, por um homem da religião errada. Nem nos diz que por isso, e para lavar a honra assim manchada, os homens da sua família e da sua aldeia, a apedrejaram até à morte, e que a sua morte foi filmada e fotografada com os telemóveis dos próprios homens que a apedrejavam. Não nos diz, esta fotografia, que foram precisos mil homens armados de pedras, para lavar a honra manchada por esta rapariga de dezassete anos que se apaixonou por um homem da religião errada.