May 4th, 2007

rosas

a caminho do horizonte

Adoro quando ando a passear por uma livraria e há um livro que me chama, que me faz pegar nele, desfolhá-lo, ler as badanas, e perceber que o quero ler. É como comprar gravatas, nunca sou eu que as escolho, são sempre elas que, lá do meio do escaparate que partilham com muitas outras, me chamam e me fazem trazê-las para casa.
No fim-de-semana passado, andava a passear pela feira do livro e aconteceu-me uma dessas coisas: peguei num livro, cujo título ou nome do autor à partida não me diziam nada, mas havia qualquer coisa, qualquer pormenor da fotografia da capa, que me chamava.
Percebi, pela contracapa, que o livro era escrito por um jornalista da televisão, e que relatava uma viagem em África. Estava já, naturalmente, interessado. E fiquei ainda mais quando percebi pelas primeiras páginas que essa viagem começava em Moçambique, mais propriamente na ilha da Inhaca, onde estive há cerca de um mês.
Faltam-me poucas páginas para terminar. Intitula-se A Caminho do Horizonte, e o autor é Miguel Lemos (editado pela Gradiva). Gostei muito das páginas iniciais, como é óbvio, do relato das viagens em Moçambique, no Maputo, na Inhaca, em Vilanculos e no Bazaruto, e, mais a norte, em Pemba e no arquipélago das Quirimbas. Sobretudo o capítulo da Inhaca, porque toda a descrição do livro está ainda muito viva na minha memória. Mas devo confessar que gostei sobretudo porque falava de coisas que eu gosto. Não acho que o livro está ‘terrivelmente’ bem escrito, como era de supor e esperar num jornalista tão experiente. E o próprio olhar do autor é um bocado complicado, nota-se que há uma atracção pela aventura, uma entrega a África e às suas gentes e paisagens, mas também está sempre presente o olhar distanciado, e por vezes até um pouco cínico, do jornalista.
A parte central do livro, que cobre a travessia da África do Sul, do Botswana e da Namíbia, nunca consegue agarrar, não fascina, apesar de haver trechos que sugerem histórias e pormenores fantásticos. Dá-me ideia que o autor, nesta parte, desperdiça um pouco o material de que dispunha, e algumas páginas chegam mesmo a ser maçudas.
Já quase no final o autor/narrador regressa à sua terra, Angola, e o livro intercala o relato de viagens com o desfiar de memórias pessoais. Mas retoma o interesse e mesmo a capacidade de galvanizar a atenção. Nas páginas que leio neste momento, o autor relata a viagem que fez, com um grupo de amigos, a bordo de um veleiro, para fugir de Angola nos anos da brasa a seguir à independência do país. Percebe-se que foi uma viagem timorata, e mesmo muito irresponsável, mas que, como a sorte protege os audazes, terminou bem. E, sobretudo, está escrita com paixão e vivacidade, e facilmente é a parte mais fascinante do livro.
Em suma, um livro um pouco desequilibrado, que alterna trechos muito vivos e interessantes com outros menos conseguidos. Poderia ter um pouco mais de qualidade literária: o segredo do negócio não está apenas em se ter uma boa história para contar, mas sobretudo no modo como ela se conta, e parece-me que o autor por vezes descura a narrativa. Acho que é um livro que vai interessar todas as pessoas que se interessam por África, sobretudo por Angola e Moçambique, e não apenas do ponto de vista afectivo ou turistico, mas até em relação à sua história recente.