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(no subject)
rosas
innersmile
«Although my parents never attended church or mentioned Jesus except when they screamed at each other – and then they used his full name 'Jesus Fucking Christ'»

Continuo a divertir-me muito com os textos do Augusten Burroughs, desta vez do livro Possible Side Effects. O esquema é o mesmo dos outros dois livros que li dele, textos curtos, de carácter assumidamente autobiográfico, um olhar mais sarcástico do que irónico dirigido, em primeiro lugar, ao próprio autor, uma capacidade de apanhar, em poucos traços e palavras, o lado mais patético, mas também mais frágil, e muito muito divertido, da vida.

Já mencionei aqui, mas vale a pena repetir que o livro que deu fama a Augusten, Running With Scissors, já está editado em Portugal, pela Bico de Pena, com o título Correr Com Tesouras. Suponho que a razão desta tradução estará no facto de o livro ter sido adaptado ao cinema, com a Anette Bening no papel da mãe do Augusten.

l'ombre de ton ombre
rosas
innersmile
Sou fã número 1 do Camané, e quem lê este diário on line já terá dado por isso. Por isso foi particularmente embaraçoso ler na entrevista que concedeu ao Ípsilon, na Sexta-feira, o cantor a deixar-se enganar na tradução de uma das imagens mais belas e poderosas da canção Ne Me Quitte Pas, traduzindo «l’ombre de ton chien» por 'o ombro do teu cão'. E digo deixar-se enganar porque Camané foi atrás do indesculpável erro de tradução cometido pelo jornalista que o entrevistou.

E é embaraçoso porque, por um lado, o Camané é um cantor com um predomínio absoluto da palavra, uma das suas grandes qualidade é pôr sempre a voz e o modo como a usa ao serviço das palavras que canta, e não, como se vê tanta vez no fado, o contrário, ou seja utilizar as palavras apenas como matéria de exibicionismo vocal. E é embaraçoso porque esta canção de Jacques Brel tem um texto perfeito, cheio de imagens poderosíssimas e avassaladoras da dor amorosa (e esta é uma delas: 'deixa-me tornar a sombra da tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão') e é de todo inadmissível pensar na hipótese de a cantar sem se saber exactamente o que se está a dizer.

É completamente absurdo o jornal publicar uma peça tão importante, ao ponto de ser a capa do suplemento, sem ninguém competente a ter lido e dado pela asneira. E é uma gaffe jornalística totalmente imperdoável, para mais por parte de um jornalista que é suposto ser especialista na área musical, especialmente na música popular. E neste caso particular que tem um pouco aquele tique que alguns jornalistas possuem de achar que o seu gosto é um pouco o ditame da moda (e o tom com que escreve, na edição de hoje, sobre o concerto de Camané prova isso mesmo).

São asneiras deste quilate que comprometem a credibilidade de um jornal e a qualidade de um jornalista, e que, no caso do Público, se tem infelizmente vindo a tornar comum. Sim, porque o Camané de certeza que sobrevive a este disparate. Eu que o diga, que estou ansioso para que o concerto seja editado em cd, já que as hipóteses de o ver ao vivo são quase nulas.
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