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mpb lusa
rosas
innersmile
Por uma coincidência interessante, saíram, num brevíssimo período de tempo, três discos de três cantoras portuguesas (ou melhor, de duas cantoras e uma actriz) completamente preenchidos com música brasileira. Dois deles já cá cantam, os de Teresa Salgueiro, com o Septeto de João Cristal, e o da Maria João. Falta o da Maria de Medeiros, A Little More Blue, de que apenas ainda ouvi pequenos excertos nos postos de audição da Fnac.
Suponho que seja coincidência os três discos terem saído na mesma altura, mas já me parece significativo o facto de serem os três dedicados aos songbooks de alguns dos maiores compositores populares do Brasil. Primeiro porque não há português, amante de música, que não tenha convivido em grau maior ou menos com a música brasileira. Depois porque em Portugal todos os aspirantes a cantores se socorrem das canções brasileiras, e de certa forma o que estas três grandes damas da cultura portuguesa fizeram foi perderem a vergonha de fazerem ‘em grande’ aquilo que todos os cantores dos bares fazem e sempre fizeram.
Mas parece-me que há uma outra razão mais forte do que estas. A música popular brasileira é riquíssima, de uma qualidade imensa, e é uma oportunidade e um privilégio poder cantar (e ouvir, naturalmente) na nossa própria língua, um cancioneiro que deve ser dos maiores patrimónios culturais do mundo, uma forma de arte tão apurada e depurada. Com a agravante de que no Brasil há compositores e há intérpretes, para além dos músicos que fazem carreira de ‘cantautores’. Alguns dos maiores músicos brasileiros nunca escreveram uma letra de canção ou compuseram uma melodia. É possível, com um património musical tão grande e tão rico, construir uma carreira apenas como intérprete de canções.
Em Portugal um cantor ou uma cantora tem uma enorme dificuldade em fazer carreira apenas como intérprete, e é por isso que a maior parte deles integra grupos ou projectos musicais colectivos (tirando o fado, que também tem um songbook muito rico). É por isso mais que compreensível, e era mais ou menos esperável, que os intérpretes se socorressem das grandes canções da música popular brasileira.

Quanto a estes dois discos que já ouvi, são muito diferentes, apesar de haver algumas referências comuns. Mais clássico o cd da Teresa Salgueiro, fez-me lembrar alguns registos dos combos que Tom Jobim organizava para tocar a sua música. É um cd que está, penso eu, muito próximo do que poderá ser um standard da música popular brasileira. O disco da Maria João é mais inovador (até na escolha do reportório), mais arriscado, com aquele cruzamento de jazz e pop que tem sido um dos caminhos que a cantora tem traçado. É também um disco mais pessoal, muito coerente com o universo musical da cantora. E tem uma coisa que eu acho deliciosa, que é cantar músicas brasileiras com sotaque português: a versão de Retrato a Branco e Preto, um clássico maior de Jobim e Chico, está simplesmente prodigiosa.
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