April 25th, 2007

rosas

sempre

O 25 de Abril deixou promessas por cumprir? Foi terrível trincar a maçã da utopia e depois deitá-la fora porque bichou? O ‘D’ de desenvolvimento descambou nesta sociedade amorfa e invejosa, conformada e oportunista?
Tudo isso pode ser verdade, ou mais ou menos verdade, mas para mim o 24 de Abril era a guerra colonial, e o 25 de Abril veio acabar com ela. Quando eu era miúdo, passaram por casa dos meus pais dezenas de jovens, uns a caminho da guerra, outros a desintoxicarem dela, outros apenas à espera que o vazio se lhes desvanecesse dos olhos. Durante breves dias, algumas semanas, ou muitos meses, esses soldados foram todos meus irmãos mais velhos. Com eles aprendi a jogar xadrez e a fazer truques com cartas e lâminas da barba. A minha infância está marcada por esse convívio com a guerra colonial, com a brutalidade das notícias, com os helicópteros a sobrevoarem a minha casa a caminho do aeroporto, com a cerimónia da bandeira em frente ao quartel-general, com os estilhaços que quase iam matando um, com as paranóias de outro que nos impediam a todos de dormir. Com o fascínio e o horror, o medo e o aventureirismo, que a guerra provoca em quem não tem capacidade de a pensar, quanto mais de a entender.
Um destes dias alguém comentava que se tecem loas ao Salazar por nos ter livrado da segunda guerra mundial, esquecendo os milhares de jovens que morreram, se estropiaram, ou viram os seus futuros para sempre comprometidos, por esses treze anos de guerra cujo único fito era segurar os indomáveis ventos da história (‘the answer, my friend, is blowing in the wind’, como dizia o Bob Dylan).
Só por isso, por ter acabado com esse absurdo e fatal equívoco, mesmo se não fosse por mais nada, 25 de Abril sempre.