April 23rd, 2007

rosas

moz07.9 (fim)

7.4.07

Já a bordo do avião de regresso a Lisboa. Não faço a mínima ideia de quantas horas serão (não sei do relógio desde o segundo dia de férias, espero que esteja dentro da mala). Saímos de Maputo perto das 8 da noite e devemos chegar às 5 e meia.
Hoje fomos de manhã cedo para o Bilene, com paragem no cruzamento de Macia para comprar castanhas de caju pela janela do mini-bus.
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Não gosto do Bilene, acho que é o rosto do pior que Maputo tem, as classes influentes, o reino do poder político e do dinheiro suspeito. No troço de estrada onde esperámos pelo transporte de regresso, junto a uma bomba de gasolina, os jovens exibiam vistosos automóveis, SUVs, moto-quatros, e rolos de notas nas mãos, caixas térmicas com bebidas nas malas dos carros. Demasiado cliché.
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Atravessar os arredores de Maputo, desde o cruzamento da estrada para a Matola, junto ao cemitério, passando pelo Infulene, Benfica, na verdade quase até Marracuene, é uma experiência fantástica, como já tinha sido há 4 anos (com a diferença de que nessa altura fiz esse troço, no regresso a Maputo, já de noite, o que contribui para aumentar a sensação de irrealidade). Um movimento caótico, nos lados e no meio da estrada, dão a exacta medida da desmesura do que foi o crescimento voraz e completamente desordenado da cidade, mas ao mesmo tempo uma impressionante sensação de que estamos no centro do mundo, de que o centro do mundo é de facto uma periferia.
É assustador. Fascinante mas assustador. Faz-me sempre ter consciência dos meus limites e da minha reduzida capacidade de sobrevivência fora da fortaleza de conforto e bem-estar onde vivo. A desconfortante impressão de que se me abandonassem na periferia ao fim da tarde eu dificilmente chegaria vivo ao amanhecer seguinte. E isso, entre muitas coisas, é uma profunda lição de humildade.
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Quanto a balanços desta vinda a Moçambique. O que me deu mais gozo foi conhecer a cidade, reconhecê-la, identificar os lugares, saber as ruas, os seus nomes, os antigos e os modernos. Dá-me prazer, e orgulho, conhecer Maputo mas também, através de Maputo, conseguir conhecer a cidade de Lourenço Marques, a que foi dos meus pais.
E conhecermos o lugar onde nascemos, dá-nos sempre a noção de que o mundo é um lugar aconchegante.
Escrevi páginas atrás deste caderno que a vinda a Moçambique em 2003 me reconciliou comigo mesmo, porque me mostrou um pedaço de mim que eu não tenha consciência de que me fazia falta. Conhecer melhor esse pedaço, só me torna mais apaziguado, mais tranquilo, mais feliz.
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Gostei de visitar a Inhaca com mais vagar do que da outra vez. Gostei de passear pela maré baixa porque me trouxe à memória (a memória do corpo, que é sempre mais intensa do que a memória da mente) dezenas ou centenas de outros passeios, noutras praias, mais a norte.
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Apesar do contacto superficial e apressado, fiquei com a ideia de que a vida em Maputo está mais normalizada, mais, digamos assim, quotidiana, como deve ser nas grandes cidades. Até a estrada para o Bilene me pareceu em melhores condições do que há 4 anos, com melhor sinalização. Acho que já não se vê tanto lixo nas ruas. De algum modo, parece que há um ar mais desanuviado.

Para já, e até me lembrar de mais alguma coisa, fecho este caderno. Ou melhor, estas páginas do caderno que inaugurei em Janeiro de 2003 e que agora continuei. Há pouco brincava com a minha companheira de viagem de que o caderno ainda tem muitas páginas em branco, e por isso preciso de voltar muitas vezes para as preencher. Não sei, obviamente, se o irei fazer. Mas, pelo menos emocionalmente, voltar a escrever neste caderno impressões e apontamentos de estadia em Moçambique, é cada vez menos uma questão de 'se' e sempre mais uma questão de 'quando'.

No caminho para o aeroporto, ao final da tarde, ao passar junto à Mafalala, vejo, por entre os telhados de zinco das barracas, um papagaio de papel a voar acima das casas, das copas das árvores. É com o invisível mufana que há-de estar, perdido no labirinto, na outra ponta da corda esticada, que escolho, não sei se ficar, partindo, se partir, ficando.