April 22nd, 2007

rosas

aí está a montra de livros

So many books, so little time!
Estou quase a terminar a leitura de The Man Who Knew Too Much, uma biografia de Alan Turing, um dos homens que inventou o computador, escrita por David Leavitt. O livro não é muito fácil de ler porque Leavitt consegue fazer como que uma reconstituição dos processos mentais de Turing que o levaram à elaboração dos fundamentos do funcionamento dos computadores, e como Turing era matemático eu às vezes fico completamente à nora, perdido na explicitação de raciocínios matemáticos, sobretudo no campo da lógica.
De qualquer forma, tirando essas partes em que parece que estou a ler hieróglifos egípcios (o facto de estar a ler o livro em inglês não piora a situação, o que é estrangeiro para mim é mesmo a matemática), o livro é muito interessante, a diversos níveis. Desde logo porque nos dá uma panorâmica muito rica acerca do ambiente intelectual de uma época e de como a criação do computador foi um produto desse ambiente. O livro permitiu-me, a mim que sou um ignorante na matéria, perceber um pouco o missing link entre a inteligência humana e a sua consequência que foi criar uma inteligência artificial.
Mas o livro também é interessante por causa da própria personagem do Turing, um matemático homossexual, que aliava uma certa extravagância (o lunático que há em todos os génios) com um espírito muito pragmático. A consequência mais evidente desse pragmatismo foi, como é a óbvio, a concepção do computador (a máquina de Turing, como é conhecida, é um modelo abstracto do funcionamento de um computador, concebido como um conjunto de memória e configurações), mas há outras, como por exemplo a forma natural como Turing encarava a sua homossexualidade.
Foi aliás essa naturalidade que lhe custou a própria vida. Julgado por prática de actos obscenos, ao abrigo das vitorianas leis inglesas sobre a sexualidade, que vigoraram até há poucas décadas, foi dada a Turing a possibilidade de, em alternativa à pena de prisão, se submeter a um humilhante e doloroso tratamento hormonal. Deprimido, Turing suicidou-se trincando uma maçã mergulhada em cianeto.
Há uma ironia terrivelmente bela, e até poética, se pensarmos que a marca de computadores mais célebre de todas tem por símbolo uma maçã trincada!
Foi um pouco surpreendente deparar com este livro escrito pelo David Leavitt. Apesar de não ser a primeira vez que se aventura no terreno da não ficção (em português há um livro editado pela Asa sobre Florença, onde viveu durante muitos anos), Leavitt é conhecido sobretudo como ficcionista, sobretudo pelos seus contos, que são muito bons (e, na minha opinião, bem melhores do que os romances e novelas), sendo um dos nomes mais seguros daquilo que poderemos designar como literatura gay, já que a maior parte das suas histórias têm a homossexualidade, se não como tema, pelo menos como condição e contexto.

Nas férias li Uma Nova História Universal da Infâmia, um livro do galês (acho eu) Rhys Hughes, e que pretende ser uma mistura de homenagem e pastiche ao célebre livro de Jorge Luís Borges. Apesar de ser divertido e com uma capacidade inventiva extraordinária (sobretudo para o mal, como é óbvio), devo confessar que não me prendeu muito a atenção. Talvez porque o tenha lido em férias, quando o meu espírito estava mais virado para outras coisas.

Além disso, tenho uma montanha imensa de livros para ler. Antes de férias tinha comprado mais um livro do Augusten Burroughs, Possible Side Effects (a propósito, a editora bico de pena acaba de publicar Correr com Tesouras, a tradução de Running With Scissors, de que já falei aqui). Em Moçambique comprei uma catrefada de livros, sobretudo de poesia, mas também de ensaio literário. Esta semana ofereceram-me dois livros, Entre Deuses e Césares, de Fernando Catroga, e O Século Passado, de Jorge Silva Melo. E hoje na feira do livro comprei Campo de Trânsito, de João Paulo Borges Coelho, um dos meus escritores lusófonos (é moçambicano) preferidos. Preciso de férias para ler, é o que é. Mas os tempos que se aproximam devem ser conturbados de mais para eu poder ter o tempo e a disponibilidade de espírito necessária à leitura…. Por outro lado, o facto de eu andar muito preocupado e ansioso (estou a passar por um turning point profissional), leva-me invariavelmente a acordar muito cedo, ou pelo menos muito antes do despertador tocar, pelo que tenho aproveitado para umas leituras matinais!

Só acrescentar, porque me esqueci de referir, que durante muitos anos o Alan Turing foi conhecido, não pelo seu papel no desenvolvimento teórico da computação, mas porque fez parte do grupo de cientistas que durante a II Guerra Mundial conseguiram criar uma máquina capaz de descodificar as mensagens encriptadas pela Enigma, a famosa máquina de encriptação criada pelos nazis. Esta sua actividade de espionagem é considerada muito relevante na vitória dos aliados, por ter conseguido quebrar as mensagens de guerra secretas dos nazis.