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moz07.8
rosas
innersmile
6.4.07

São 22 horas e eu estou sentado a escrever, às escuras, na varanda do quarto do Hotel Cardoso.

De manhã visitámos a estação de biologia marinha da Inhaca, ou melhor o museu da estação. Depois passeámos um pouco pela maré vaza, e de novo aquela sensação de familiaridade, de estar a repetir gestos e passos de antigamente: olhar a água rasinha, os caranguejos, os búzios, o cheiro da orla marítima, a luz do sol reflectindo-se na areia. Reencontrar um lugar que está na minha infância, gestos e passos que o meu corpo sabe de cor.

A viagem de regresso a Maputo foi um dos pontos altos desta semana turística. Começou logo por termos de trazer as bagagens, não só até à recepção do lodge, como é habitual, mas mesmo até à praia, à areia, à beirinha das ondas. Um espectáculo, as samsonites coloridas todas alinhadas à espera da ordem de mergulho.
Como a maré estava muito baixa, o barco da ligação para Maputo teve de fundear longe, e mesmo os botes não podiam chegar muito perto da praia. Uma cena digna de filme: uma procissão de gente, chap-chap no mar raso, um vaivém de malas à cabeça dos rapazes carregadores, os turistas brancos e desajeitados, de calções arregaçados e sandálias na mão.
Depois, os botes cheios até ficarem quase ao nível da água, as malas empilhadas em equilíbrio instável na prancha da popa. A passagem do bote para o barco foi outro fartote, as malas a voarem por cima das cabeças para a amurada da embarcação, as mamanas a treparem em esforço elegante, os jovens bem vestidos em salto ágil, e, claro, nós os turistas em enormes sobressaltos e periclitantes baloiçares. Lindo!
Já a meio da travessia, navegámos de encontro a uma enorme tempestade que se deslocava da cidade para a baía. Relâmpagos a cair a toda a volta, e uma bátega de água daquelas à maneira, nós todos de colete salva-vidas cor de laranja, a água da chuva a entrar pelas frinchas das protecções de lona do deck, as samsonites a descobrirem a sua vocação marítima dentro do barco. Os viajantes locais, conhecedores da baía, a sossegarem os turistas assustados, que aquilo era 'apenas uma onda'. O meu vizinho do lado contou que quando o mar está verdadeiramente agitado, até as pessoas que nunca falam com deus se deitam no chão do barco a chamar por ele.
A borrasca, tão depressa quanto chegou assim de afastou, e nós entrámos no porto de Maputo à gloriosa e limpíssima luz do fim de tarde, que tornou a cidade ainda mais bela, verdadeiramente refulgente. É impossível não nos comovermos com tanta beleza.
No caminho do porto para o hotel viemos pela Patrice Lumumba, que deve ser uma das avenidas mais bonitas de Maputo.
...
O Hotel Cardoso tem o encanto das coisas antigas, apesar de ser inteiramente renovado.
Mal cheguei ao hotel, e enquanto o resto da excursão se afadigava na confusão do check in e na guerra das bagagens, corri para o jardim da piscina do hotel, de onde a vista para a baixa da cidade é verdadeiramente deslumbrante (é para vistas assim que se inventaram os adjectivos a seguir a advérbios de modo), e onde se assiste, de camarote, a um fabuloso pôr do sol, por detrás da Catembe.
A piscina do Cardoso foi onde a S. me trouxe na minha primeira tarde de Maputo, em 2003, e telefonei-lhe para assinalar a circunstância.
Estar de pé, no limite da barreira, a desfrutar a vista, lembra-me sempre (sempre) de um certo poema do Knopfli: «O menino que eu fui debruça-se furtivo de meus olhos sobre o recanto da paisagem.»