April 19th, 2007

rosas

moz07.6

4.4.07

Na Inhaca.
A viagem desde a África do Sul foi, como seria previsível, uma aventura.
Saímos de Malelane às 7 da manhã e chegámos a Komatiport ainda não eram 8. Já muito perto da fronteira os nossos carros (a Hiace e um mini-bus) foram desviados pela polícia para um desvio. Contornámos uma enorme zona vedada, dentro da qual entrámos por um portão que se abriu de propósito para nós passarmos, entre muitas hesitações por parte de um grupo de polícias sul-africanos e moçambicanos. Mais umas voltinhas dentro do recinto e parámos as viaturas num estacionamento junto a um enorme armazém. Pelos visto a fronteira estava demasiado congestionada (muitos turistas sul-africanos brancos e muitos trabalhadores moçambicanos negros a passarem a fronteira para as férias da Páscoa em Moçambique) e, aparentemente, decidiram abrir um posto alfandegário alternativo. O problema é que ainda não estava pronto! Seis mesas dispostas ao longo do armazém, três para o despacho sul-africano e três para o moçambicano. Nas primeiras, computadores à espera que viesse alguém com a password para poderem começar a despachar. Nas segundas, nem sinal dos oficiais da fronteira, que estavam cá fora ‘à espera’. Ao fim de meia hora, apareceu uma rapariga, introduziu a password, fizeram o despacho sul-africano. Nas mesas ao lado, nada. Enquanto isso, duas ou três empregadas de limpeza varriam o recinto e limpavam o pó das mesas.
Durante todo este tempo éramos as únicas pessoas que estavam ali. De repente, começaram a parar carrinhas Hiace umas atrás das outras, todas a abarrotar de gente. Filas enormes junto às secretárias sul-africanas e depois o mar de gente espalhado por todo o lado. Uma das oficiais moçambicanas queixava-se ao telemóvel de que estava muita gente, e um grupo de turistas à espera ‘há mais de duas horas de tempo’. Nós, claro.
Entretanto, chegaram mais oficiais alfandegários moçambicanos com o instrumento necessário para começar a dar o despacho: carimbos! A multidão, verdadeiramente ululante, cerrou com violência em volta das mesas. Um bocado assustador. Mas por cima do tumulto das vozes, o batuque incessante dos carimbos a cair com força no tampo das mesas. Em poucos minutos, uns dez talvez, a multidão dispersou, as Hiaces voltaram a encher-se, e todos desapareceram. Todos? Não, um grupo de valorosos turistas portugueses ainda continuou à espera durante mais um bocado.
A questão é que não tínhamos visto de entrada, e por isso repetiu-se a cena do dia da chegada ao aeroporto. Quando o armazém ainda estava cheio de pessoas, um dos oficiais pegou no nosso molho de passaportes, numa caderneta de vistos e veio para fora do armazém, junto ao cais de descarga, de pé, a usar o cais como secretária, e começou a emitir os vistos.
Finalmente com os vistos emitidos, lá arrancámos em direcção à fronteira, para nova paragem enquanto os nossos motoristas levaram os nossos passaportes para serem carimbados.
Conclusão, saímos de Ressano Garcia já passava das onze, que era a hora a que devíamos estar a embarcar no porto de Maputo.

Foi, até agora, o momento mais emocionante da viagem. O barco para a Inhaca largou do porto de pesca, junto à baixa de Maputo, afastando-se lentamente, atravessando o estuário e entrando na baía. E percorrendo lateralmente a cidade.
É uma cidade lindíssima, de uma beleza que fica muito para além das palavras, porque mora no puro campo das emoções.

Tenho pensado na razão porque me dá tanto prazer identificar a cidade, conhecê-la bem, e acho, apesar de não saber bem definir o que se passa, mas acho que tem sobretudo a ver com a possibilidade de partilhar, de honrar, uma memória que é a dos meus pais. Eles contam-me histórias da cidade e das suas vivências nela. Enche-me de orgulho conhecer a cidade, saber os lugares, como se isso me desse o privilégio de pertencer a uma determinada categoria de pessoas, a um grupo seleccionado, precisamente esse das pessoas que conhecem esta cidade.







rosas

moz07.7

5.4.07

De manhã praia na ilha dos Portugueses. O inultrapassável prazer de tomar banho neste mar. Estive sempre, e como sempre, dentro da água. Acho que quando estou dentro desta água se confundem em mim o tipo que sou agora e o puto que fui há trinta ou quarenta anos, na praia das Chocas.
À tarde, passeio nos mangais e pôr do sol na ponta da ilha, junto ao farol.

Li agora, pela primeira vez, o que escrevi neste mesmo caderno, páginas atrás, na noite de 16 de Janeiro de 2003. Na noite que passei sozinho, em Nampula, no quarto de um hotel junto à rua onde morei na infância. Foi, de certo modo, a ‘grande noite’ (a noite triunfal, para usar a expressão pessoana) dessa viagem, aquela que operou uma mudança dentro de mim, na minha cabeça, nos meus sentimentos e nas minhas emoções.
E, agora, tornei a comover-me, ao ler o que escrevi então. Ok, comovido comigo próprio, com a minha incapacidade em agarrar uma coisa que não existe, em segurar a felicidade. Irra, que melodrama!
O que quero dizer é que tenho sempre esta sensação de perda, de que houve uma água feliz que segurei nas mãos em concha, mas que escapou por entre os dedos. E de certa forma o que me comove é a frescura dos dedos molhados, a lembrança dessa água que desapareceu.

Moçambique será sempre para mim uma questão. Uma coisa intensa, que me fascina para além da vertigem, e que não domino inteiramente.
Penso que precisava de viver cá uns tempos, para ‘normalizar’ esta minha relação com o país onde nasci. Mas sei que muito provavelmente nunca aqui viverei, nunca terei a coragem necessária para isso.

Se não tivesse sido a viagem de 2003, esta teria sido muito diferente. Em 2003, e isso devo-o à S. (e voltar cá deu-me ainda uma noção mais rigorosa do tamanho da minha gratidão), tive tempo e oportunidade para viver as coisas, saboreá-las, vivê-las devagar. E sem precisar de disfarçar, de fazer de conta, porque a S. já mas topava todas e apanhava-me sempre pelo lado mais frágil.

Bem, tenho de parar, chamam-me para jantar.