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moz07.1
rosas
innersmile
31.3.07

Retomo este caderno quatro anos e picos depois, quando são duas da manhã (hora de Lisboa) e eu vou a bordo do voo da TAP em direcção a Maputo.
Regresso a Moçambique
...
Há quatro anos estava muito (imensamente) nervoso, com uma ansiedade enorme, uma expectativa que me enchia o peito e transbordava até a capacidade de um peito para acolher uma dose de ansiedade. Claro que por não saber ao que ia, por não conseguir fazer a mais pálida representação do que era o lugar onde nasci. Depois porque a minha relação com essa terra era muito estranha. Uma forçada indiferença, uma vontade de corte, tinha marcado a minha relação com Moçambique. As memórias pouco passavam do anedótico, com muitas histórias de ouvir contar.
E foi, como transparece nas páginas anteriores deste caderno, uma das coisas mais importantes da minha vida. Foi um regresso a mim. Mais do que reconciliar-me, foi conhecer uma parte de mim, que eu desconhecia, e que eu desconhecia que me fazia falta. Como se: 'ah!, então este era o bocado que eu nem sabia que me faltava, mas agora que o encontrei percebo como a sua falta me tornava tão incompleto'! Foi isto. Pôr um homem, já maduro, contra uma paisagem, e ele perceber que afinal fazia parte desse cenário.
Acho que está escrito umas páginas atrás que descobri que eu pertencia a esta terra a que regresso agora, apesar de ela já não me pertencer. Eu posso dizer 'esta é a minha terra', apesar de ter absoluta consciência de que o contrário não é verdade, ou seja, eu não lhe pertenço, ela não me reconhece como seu.
Por tudo isto, o espírito com que estou neste momento é completamente diferente. Não é como voltar a casa, nada disso. Mas é a excitação de voltar a ver, a respirar o ar, voltar a olhar, voltar a pisar o chão. Olhar de novo para perceber melhor. A conhecer mais. Com a esperança de que quanto mais conhecemos, mais amamos. De certa forma, é como voltar à Irlanda, ou aos Açores, ou a Eau Claire ou a Londres – voltar aos lugares que amámos, aos lugares que nos fizeram crescer. Com a relevante diferença de que a minha relação com Moçambique é mais intensa, mais misteriosa, mais profunda, mais carinhosa.
Amo aquela terra pelo que percebo que ela me deu. Amo-a pela poesia e pela literatura, que foram as formas que fui capaz de arranjar para aprofundar a minha relação com ela.
Por tudo isto, cá vou eu, expectante, mas sereno. À espera do ar, do calor, da humidade. Da sombra prolongada e vermelha das acácias.
...







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