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(no subject)
rosas
innersmile
VIOLANTE

Conheci-a há vinte, vinte e tal anos. Ela frequentava, ainda que esporadicamente, o café onde eu passava a minha vida, à tarde em sala de estudo, à noite em cavaqueiras, e tínhamos alguns amigos comuns. Já tinha, naquele tempo, um certo ar de distanciamento, feito de um pouco de arrogância e superioridade mas também de isolamento e talvez mesmo uma certa apatia. Poucos anos mais tarde, casou com um desses amigos do café, e esse casamento proporcionou-lhe aquele requinte que o dinheiro traz ao bom gosto, que ela sempre teve. Confluências profissionais e mal-entendidos sentimentais fizeram com que convivêssemos, há uns quinze anos talvez, de forma intensa mas muito breve. Depois disso deixámos praticamente de nos ver, apenas esporádicos encontros no cinema ou numa esplanada.

Um destes dias, reapareceu-me à frente. Sentou-se, e ainda antes de dizer ao que vinha, começou a chorar. E a contar-me a história dos seus últimos meses. Durante as duas horas seguintes, falou-me de tentativas de envenenamento, de complots assassinos combinados em noites de reveillon, de laboratórios da polícia criminal e sessões de soro da verdade, de hipnose e internamentos psiquiátricos compulsivos, de estranhos movimentos de automóveis ao longo da auto-estrada do Norte, de psiquiatras manipuladores, de advogados mafiosos e de inspectores de polícia tenebrosos, de cheiros misteriosos, de doenças estranhas e secretas impossíveis de diagnosticar. Falou, falou, chorou, segurou as lágrimas com os dedos e limpou-as com um lenço, fumou cigarros. De repente, com a mesma perturbação súbita com que acordamos a meio de um sonho, despediu-se abreviadamente e desapareceu.

Passei o resto do dia consternadíssimo, deprimido e desanimado. Mas à medida que as horas iam passando, todo o encontro foi ganhando os esfumados contornos da irrealidade, como se de facto tivesse sido um sonho. A minha mente, meticulosamente, foi apagando os pormenores das histórias que me contou, os detalhes, as ligações, as subtis coincidências, os indícios suspeitos e as provas circunstanciais. Ao mesmo tempo, foi crescendo em mim a estranha convicção de que eu tinha sido vítima de um embuste, de uma encenação. Que tudo não tinha passado de um espectáculo montado, não tanto para mim, mas do qual, inadvertidamente, eu passara a fazer parte. Mas para quê?
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