March 26th, 2007

rosas

olé

Suponho que na agenda bloguística hoje seja dia de falar do resultado do concurso que a rtp organizou para escolher o melhor (ou o maior, não sei bem) português de sempre, e cujo vencedor, por voto popular, foi o Salazar.
Não vi as anteriores edições do programa, mas sabia que se estava a desenrolar, como é óbvio, mas ontem percebi que era a final do concurso e fiquei a ver.
Convenhamos que não é grande proeza considerar o melhor português de sempre um tipo que era anti-desenvolvimentista, que queria os portugueses pobres e analfabetos para não fazerem ondas, que tinha medo da coca-cola e de outras modernices americanas, que impediu o desenvolvimento económico do país porque sabia que a criação da classe média era fatal para os seus planos. Claro que estamos a falar de um concurso televisivo, de apuramento de resultados por mera adição de telefonemas ou cliques na Internet, e não de uma sondagem feita com rigor científico. Por isso este resultado vale o que vale, não é perigoso como, por exemplo, o facto de as claques de futebol estarem controladas por neo-nazis.
Mas se não é perigoso, é, pelo menos um bocado embaraçoso (como catrapiscar revistas pornográficas na prateleira de cinema das lojas de revista, aquelas coisas que não queremos que ninguém nos veja fazer) pertencer a um país que escolhe um concurso de televisão que deveria ser uma forma alegre de celebrar a nossa história e a nossa cultura, para ajustar contas mal saldadas, para castigar políticos, para, enfim, deixar vir ao de cima a acrimónia dos mau-perdedores.
Parafraseando o Almada, se isto é que é o melhor português, eu quero ser espanhol. Olé!
rosas

príncipe real, com recado

Ainda às voltas (e agora, já se vai ver, literalmente às voltas) com a biografia literária de Alexandre O’Neill da autoria de Maria Antónia Oliveira. No capítulo dedicado à década de sessenta, Lisboa às Moscas, há uma espécie de subcapítulo que se chama Um Percurso O’Neilliano e que tem a seguinte epígrafe de Ruy Belo: «Só as casas explicam que exista/ uma palavra como intimidade».
Em meia dúzia de páginas, a autora leva-nos a percorrer, rua a rua, casa a casa, os lugares de Alexandre O’Neill, onde viveu, onde viveram os amigos, onde comeu, onde trabalhou, através do bairro do Príncipe Real: Rua da Escola Politécnica, Rua da Imprensa Nacional, Calçada Engenheiro Miguel Pais, Rua do Monte Olivete, Rua Luís Fernandes, Rua de São Marçal, Praça das Flores, Travessa da Palmeira, Travessa da Piedade, Rua Cecílio de Sousa, Rua do Jasmim, Jardim do Príncipe Real, e depois pela Rua D. Pedro V, através do Bairro Alto e para o Chiado.
Apeteceu-me, irresistivelmente, passear de livro na mão pelas ruas do Príncipe Real, refazendo o percurso do poeta, mas tive de me contentar com os mapas e as fotos satélite do google, e sobretudo com a minha memória.

Passei o ano lectivo de 1989/1990 em Lisboa. Inscrevi-me no British Council, que fica precisamente no cruzamento das Ruas de São Marçal e Luís Fernandes, e, por isso, duas vezes por semana, percorria, a pé, de autocarro ou de eléctrico, as ruas da zona. Como só tinha aulas ao final da tarde, e à medida que o tempo o permitia, passava os períodos de folga a passear pelo bairro ou estirado a ver as pombas do Jardim do Príncipe Real. Virar da Rua da Escola Politécnica para a descida da de São Marçal, o sol da tarde a bater no calcário das pedras dos passeios, lá ao fundo a cúpula da Basílica da Estrela, e uma nesga de Tejo. Lindo!
Durante boa parte dos anos 90, mesmo já depois de regressar a Coimbra, continuei a passar muitas vezes pelo Príncipe Real. Para ir à Cornucópia, um bocadinho mais acima, para ir à Livraria Britânica, em frente ao Council, ou mesmo só para passear, para matar saudades daquela que é a minha zona de Lisboa preferida. Mais recentemente, aí por volta de 2001, 2002, frequentei o Príncipe Real sobretudo à noite, na companhia de amigos, na ronda dos bares e discotecas da noite gay lisboeta. Mal sabia eu, quando andava no British Council, que à Rua de São Marçal também as sombras da noite traziam sortilégio! Já há uns anos, três ou quatro, que lá não passo. E a leitura do percurso O’Neilliano acendeu-me tantas saudades. Sobretudo da luz, a luz naquele pedacinho de Lisboa é ainda mais bonita do que no resto da cidade, que é, toda ela, uma das cidades do mundo onde a luz é mais bela.

Voltando ao livro sobre o O’Neill, só para acrescentar que, quando escrevo isto, me faltam umas duas ou três dezenas de páginas para terminar. Como por vezes me acontece, vou retardando a leitura destas derradeiras páginas. Não me apetece libertar-me já do livro. Li-o depressa demais, eu que leio tão lentamente. E agora tenho pena de o abandonar. É tão raro isto acontecer: uma biografia sobre alguém que admiramos e que nos consegue trazer ainda para mais junto do biografado, não só ficar a conhecê-lo melhor, mas ficar a gostar mais, a perceber melhor. Louvores, pois, para o livro de Maria Antónia Oliveira. Era tão bom que marcasse o padrão das bibliografias literárias em português.


P.S. Saint, se a vida for um lugar feliz, ainda um dia havemos de viver os dois no Príncipe Real. Anda!, dá-me o braço, e desçamos a Rua de São Marçal ao sol da tarde de Lisboa.


edit: em comentário a esta entrada, o Saint-Clair deixou este poema. Admirável como, a partir de meia dúzia de frases que eu escrevi, ele faz um poema que não é apenas a resposta justa ao meu convite, mas é ele próprio uma ode ao Príncipe Real.

Fecho os olhos e me imagino
numa cidade do outro lado do oceano
onde as ruas são mais verdes,
as pedras mais antigas
e o silêncio
tem a leveza dos séculos.

Pelas ruas que trazem
minhas pálpebras descidas,
- sortilégio? -
imagino que loucos pisaram suas pedras,
santos,
reis (outra forma de dizer "loucos"),

e agora eu,
que não sou santo nem rei.
Pelo verde véu florestal
desço eu
de mãos dadas:
cálidas mãos que me asseguram do caminho,
enquanto vou
por "onde a luz é mais bela"