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honwana e o cão
rosas
innersmile
O moçambicano Luís Bernardo Honwana é, pelo menos até ao momento, autor de um único livro. Mas que livro! Nós Matámos o Cão Tinhoso é obra de uma beleza comovente, e um clássico absoluto em várias frentes: é considerado um dos melhores 100 livros africanos do século XX, é um título incontornável da literatura em língua portuguesa contemporânea, faz parte do cânone da literatura colonial de expressão lusófona. Em suma, é um livro imprescindível.
Não haverá, parafraseando o engenheiro Campos, é muita gente a dar por isso, e neste caso o autor, com a sua raridade, contribuiu muito para esse esquecimento. Tanto quanto sei, e sei muito pouco, Luís Bernardo Honwana desempenhou, ou tem desempenhado, cargos políticos nos governos de Moçambique, na área da cultura, apesar de por vezes se lerem ecos de que não abandonou a literatura e que promete reincidir.
Nós Matámos o Cão Tinhoso é uma colecção de contos. Li-o pela primeira vez na escola, no primeiro ano do ensino público liceal que frequentei em Moçambique, logo após a independência. Tinha treze, catorze anos. Era uma obra indispensável na história da resistência nacionalista pró-independência de Moçambique, não só pela condição militante do autor, mas sobretudo pela condição negra e colonizada das histórias; ainda para mais, ultrapassava o mero carácter propagandista, era uma verdadeira obra literária, o que a tornava obrigatória nos programas escolares de língua portuguesa e de literatura de expressão portuguesa.
Perdi o livro na vinda de Moçambique para Portugal, mas nunca mais o esqueci, por ter causado em mim uma impressão tão forte. Readquiri-o, numa edição da Afrontamento, em Janeiro de 2003, numa livraria de Maputo. Reli-o, e tornei-me a apaixonar por esse conto cruel, o que dá título ao volume, que nos deixa sempre o coração muito pequenino e apertado, como se fossemos nós que estivéssemos numa das pontas da Ponto 22 de Um Tiro, a tentar não ver os olhos do Cão-Tinhoso na outra.
Outro dos contos que integram o livro é As Mãos dos Pretos, que tenta responder à grande questão da razão pela qual as mãos dos pretos são brancas. Seguindo este link do blog à Sombra dos Palmares, podem ler-se dois contos de Honwana: este As Mãos dos Pretos, bem como o conto Rosita, Até Morrer, publicado na antologia do conto moçambicano organizada por Nelson Saúte e editada pela Dom Quixote, e cujo título é precisamente o do conto As Mãos dos Pretos.