?

Log in

No account? Create an account

little children
rosas
innersmile
Fui ler o que tinha escrito sobre o filme anterior de Todd Fields, In The Bedroom, e uma das coisas que comento é o facto de ter achado o filme muito agarrado ao argumento, sem dar tempo e respiração às personagens. É curioso, porque um dos aspectos mais interessantes de Little Children, o mais recente filme de Field, é precisamente o olhar demorado e sempre ali entre o perplexo e o curioso, que lança às personagens do filme, ao casal de protagonistas, naturalmente, mas de um modo geral a todo o riquíssimo coro de secundários, que ajudam a dar espessura a este filme admirável.
Os títulos que os distribuidores portugueses das fitas escolhem são muitas vezes inenarráveis prodígios de falta de imaginação e de excesso de mau gosto. Assim, Little Children, um título que questiona o próprio filme e nos põe a pensar, resulta num estranho ‘Pecados Íntimos’. Percebe-se onde o distribuidor do filme quis chegar! Mas neste caso, o título português não resulta só em estranho mas em erróneo em relação ao que o filme conta, pois é precisamente a dimensão pública dos pecados (dos vários que se cruzam nesta história), e não o seu carácter íntimo, que está no cerne do filme. O já mencionado In The Bedroom teve em português o título ‘Vidas Privadas’, o que não deixa de ser uma coincidência interessante e nos diz alguma coisa sobre o cinema do realizador, nomeadamente essa fractura entre a intimidade da vida privada e a exposição da esfera social, e que está na própria essência do melodrama, género que Todd Field parece praticar com prazer e vantagem. O melodrama é um dos géneros nobres do cinema, e um dos défices do actual cinema de indústria é o pouco investimento que faz nesse género, em claro benefício, na área dos filmes para pessoas adultas, da comédia romântica.
Por isso, devo dizer que prefiro de longe esta leitura melodramática do filme de Field, do que a mais comum leitura ‘sociológica’, que insere Little Children na categoria do filme de subúrbio, segundo a matriz de American Beauty, e em que a leitura dos desvios e dos desvarios dessa gente que vive nos subúrbios das grandes cidades norte-americanas e europeias é uma espécie de diagnóstico da doença degenerativa que aflige a nossa civilização na sua maior criação, a classe média.
Como dizia, a essa leitura sociológica, prefiro o melodrama, prefiro esta história de pessoas a quem o cumprimento de todas as etapas do (anestesiante) bem-estar emocional e material, não queimou a sua fome mais primordial e desesperada: a do amor. A de se entregar, sem correntes e contra a corrente, ao impulso amoroso. A de obedecer ao impulso essencial de pertencermos a outro, para além, e à rebeldia, de todos os compromissos, que são, precisamente, essa forma de trocarmos negócio com o outro sem nunca lhe pertencermos.
No livro que estou a ler, a biografia da Alexandre O’Neill escrita por Maria Antónia Oliveira, e a propósito do Grupo Surrealista de Lisboa que O’Neill fundou, e do seu manifesto, fala-se da natureza feroz do desejo. É essa natureza feroz que, afinal, leva as personagens de Little Children a abeirarem-se perigosamente do abismo que se cava no fundo, ou no íntimo, das suas almas.
Tags: