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rosas
innersmile
Estou a ler a biografia de Alexandre O’Neill, da autoria de Maria Antónia Oliveira, e estou a gostar bastante. É uma biografia a sério, com uma dose impressionante de investigação, bem organizada e bem escrita, que se assume, e com razão, como uma biografia literária, uma vez que traça a vida do poeta sempre tendo como referência a sua obra literária, procurando na vida a génese, ou pelo menos o referencial de vida, da poesia.
Tem ainda a vantagem de ser uma obra descomplexada, que não tem a ambição de ser o retrato ‘fiel e verdadeiro’ de O’Neill, e que por isso realiza a ambição ainda maior de conseguir produzir um retrato do poeta que cheira a vida, e humano, onde o sujeito biografado aparece inteiro, na fragilidade das suas grandezas e na magnitude das suas misérias.
Para além dos factos, do pulsar da vida, o aspecto que me parece mais certeiro desta biografia é a capacidade de nos devolver um homem que foi o criador ‘daquela’ poesia. Acreditamos, não com uma profissão de fé mas com naturalidade e compreensão, que o Alexandre O’Neill que surge nas páginas do livro de Maria Antónia Oliveira é concerteza o autor dos poemas que conhecemos e amamos.

O Alexandre O’Neill foi um dos primeiros poetas que li. Conhecia-lhe as palavras dos fados, especialmente A Gaivota, da música que ouvia na infância, em casa dos meus pais, como mais tarde da impressionante versão de Perfilados de Medo que o José Mário Branco fez no disco Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades.
Em 1982 (em Setembro, fui confirmar) comprei, lembro-me bem, numa feira do livro na Amadora, no jardim que fica (ficava?) junto à estação dos comboios, a primeira edição dos poemas completos, editado pela Imprensa Nacional. Foi a minha fase de grande descoberta e paixão pelos poemas do Alexandre O’Neill, com a felicidade de o poeta ainda estar vivo, e por isso ser possível ir sabendo dele pelos jornais, pelas entrevistas. A sua morte foi um dos meus primeiros, e maiores, desgostos literários.

Como ontem foi dia da poesia (ou whatever!) e o innersmile anda sempre muito atrasado, aqui vai, para comemorar, e para assinalar a magnífica biografia do escritor, esse que foi um dos primeiros poemas de Alexandre O’Neill que conheci.

«Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...»