March 21st, 2007

rosas

memórias gore

Terminei há dias a leitura de Point to Point Navigation, a segunda parte das memórias do escritor Gore Vidal. Eu já tinha lido Palimpsest, o primeiro volume das memórias, mas foi já há alguns anos e numa circunstancia particular da minha vida, em que andava muito distraído e desatento de leituras, e o próprio volume do livro (fui confirmar, é incomparavelmente maior do que este), tudo isso faz com que a lembrança dessa leitura seja a de uma coisa um pouco arrastada e por vezes até penosa.
Bom, nada disso neste Point to Point Navigation. Acho que o livro se pode resumir em duas palavras: inteligência e elegância. Uma escrita trabalhada, fluente, nem sempre fácil e simplista, mas sempre simples, carregada de humor, ao serviço das memórias e das observações do autor, que mesmo quando são tendenciosas ou mesmo maldosas, são sempre hábeis e elaboradas.
Como devem ser as memórias, o livro não segue uma estrita linha cronológica (não é uma auto-biografia), e mistura as recordações com as próprias vivências do escritor enquanto as escreve. Isto torna o livro muito vivo, como se estivéssemos a ouvir, numa longa conversa, o autor discorrer sobre a sua vida, contando episódios, propondo reflexões, sendo simpático para umas personagens e impiedoso para outras, saltando de história em história. Vidal fala da América, claro, sempre, da política americana, fala de cinema, de ‘socialites’, de colegas escritores, das suas casas, e fala, muito, mas sempre com pudor e subtileza, de Howard Auster, o homem com quem viveu mais de cinquenta anos, e de cuja relação esta memória é uma espécie de relatório e contas, como se Vidal devesse a Howard este ponto de ordem, este arrumar de casa, antes de conseguir, ele próprio e agora sozinho, prosseguir com a sua própria vida.