March 18th, 2007

rosas

alabama 3

Fui comprar o bilhete para assistir ao último concerto do festival Coimbra em Blues, sem dar muita atenção ao cartaz. Um aviso à porta do Gil Vicente anunciava que uma das bandas tinha sido cancelada e que a outra ia estender o concerto. Mas só quando já estava sentadinho no meu lugar a ler aquela bibliografia que distribuem, é que me bateu que os Alabama 3 cujo concerto que estava prestes a começar, eram OS Alabama 3, do álbum Exile on Coldharbour Lane, um disco fabuloso de 1997 que eu comprei sem saber ler nem escrever numa altura em que comprava muitos discos de country às cegas, apenas porque estavam na prateleira da música country.
O disco não era propriamente o disco de música country que estava à espera, a começar pelo facto de os Alabama 3 serem ingleses. A música era uma mistura energética de blues, country e house, uma teia de sons com efeitos de sonoplastia, coros religiosos, e um ritmo frenético, daqueles que põe a dançar qualquer monstro empedernido com 100 quilos de peso. Para quem não os conhece, a canção mais conhecida dos Alabama 3 é o Wake Up This Morning, que fazia o genérico de abertura da série The Sopranos, e que está incluída no Exile on CL.
No concerto desta noite os Alabama 3 apresentaram-se em versão reduzida Acoustic & Unplugged, com guitarra, harmónica e duas vozes, mas tão explosivos como no disco e com o mesmo humor ácido, político e cheio de piscadelas de olho para aquela pose muito rock’n’roll do Johnny Cash dos primeiros tempos (aliás o concerto teve vários momentos Cash, o mais surpreendente de todos foi uma espécie de concurso ‘quem é o Cash da noite que decorreu na plateia do TAGV), muito rockabilly, muito estados sulistas dos EUA.
Mesmo despidas do aparato sonoro, as canções são incendiárias, muito por mérito dos excelentes instrumentistas. Muitas canções do disco, incluindo a Wake Up This Morning, U Don’t Dance 2 Tekno Anymore, e a Peace in the Valley, que passou a Peace in Coimbra. O concerto durou duas horas, foi animado e divertido, e, espantosamente, muito bluesy, a justificar plenamente a sua inclusão no tema do festival.
rosas

lena d'água, sempre

O jornal Público começou este fim-de-semana a distribuir uma nova colecção de cd’s com música portuguesa. O cd que vinha com a edição de hoje era dedicado à música portuguesa de hoje e de amanhã, e trazia, para além de êxitos recentes do hip hop (sem dúvida a área onde hoje se faz alguma da melhor música portuguesa feita por gente jovem), algumas antecipações de discos que vão sair em 2007.
Estava eu distraidamente a ouvir algumas das propostas quando de repente começa a tocar a Lena d’Água a cantar A Noite Passada, do Sérgio Godinho. Uma versão muito jazz, e, depois de procurar a escassa informação relativa à gravação no encarte do cd (muito lixo não informativo, e nem ao menos a informação sobre a autoria da canção, o que me parece verdadeiramente indesculpável, para mais numa edição que se pretende antológica do que de melhor a música popular portuguesa produziu nos últimos 50 ou 60 anos), concluí que faz parte de um cd gravado ao vivo pela Lena no Hot Club.
Só vos digo que é arrepiante. Eu parei o que estava a fazer e fiquei ali a ouvir, de lágrimas nos olhos, perante a força intensa e a fragilidade imensa da interpretação da Lena d’Água. A Lena é uma das melhores cantoras portuguesas e tem tudo o que é preciso: voz, talento, sabedoria, experiência, vida, tudo o que é preciso para fazer grandes canções.
Infelizmente em Portugal não há escritores e compositores a produzir material para os intérpretes (ou antes, há mas é apenas na área da música pimba), e por isso muita gente, sobretudo muitas vozes femininas, passam ao lado de grandes carreiras por terem tão pouco material disponível. A Lena d’Água é um desses casos, mas é da mais elementar justiça reconhecer que a Lena sempre se esforçou, ao longo dos últimos cerca de 30 anos, por fazer uma carreira séria, digna, esforçada, sem cedências ou compromissos.

Fui ver ao blog da Lena d’Água, e o disco vai-se chamar Sempre, sai em finais de Abril próximo, tem um alinhamento lindíssimo e músicos do melhor jazz que se faz por cá. A avaliar pela amostra de hoje, vai ser um disco imperdível, daqueles para guardar para Sempre.